Sobre Nós
Professor Associado de Língua Latina do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. Ex-professor da Universidade de Brasília e da Universidade Estadual Paulista. Bacharel em Letras e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo. Membro da Academia Brasileira de Filologia, ocupante da Cadeira Quatro, fundada por Ernesto Faria, cujo Patrono é Sotero dos Reis. Membro de Etnolinguistica: Línguas Indígenas da América do Sul, sócio e Vice-Diretor de Publicações do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguisticos e membro do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (UFF). Autor do "Repertório brasileiro de língua e literatura latina (1830-1996)" (Cotia, Íbis, 2006, 231 p.).
Currículo e publicações disponibilizadas na Internet
"Dicionário de tupi antigo": notas de Eduardo Tuffani à "defesa" de Eduardo Navarro
Uma tese de tupi antigo I [Versão original]
Latinista-indianista [A lançar]
De magistris colendis (O respeito aos mestres): Discurso de posse na Academia Brasileira de Filologia
Note pour les cent ans de l'enseignement supérieur en philosophie au Brésil [Versão francesa digital]
Os estudos latinos no Brasil [Versão corrigida]
Currículo e publicações disponibilizadas na Internet
Currículo
"Uma tese de tupi antigo I" [Dicionário de tupi antigo de Eduardo de Almeida Navarro]
"Revisão de um compêndio de tupi antigo" [Curso de tupi antigo de A. Lemos Barbosa]
"A Faculdade Paulista de Letras e Filosofia (1° de junho de 1931)"
"Nota pelos cem anos do ensino superior de filosofia no Brasil (1908-2008)"
"Centenário da universidade brasileira: para a história da Universidade de Manaus (1909/1910-1926)"
"Les études latines au Brésil"
Repertório brasileiro de língua e literatura latina (1830-1996) [Versão preliminar de 2002]
"Introdução ao tupi"
"DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO": NOTAS DE EDUARDO TUFFANI À "DEFESA" DE EDUARDO NAVARRO
Eduardo Tuffani
I (Cifefil, Orkut e outros)
(Escritas no calor da hora, estas notas foram ligeiramente corrigidas)
Senhores,
Lamento por tudo isso. Se alguém me acusar de ter sido "áspero" na crítica, isso se deve à natureza dos trabalhos analisados. Há livros e livros. Diante de obras como as de Navarro, como proceder? A serenidade é comprometida pela natureza do que se trata. Será que devo retrucar os argumentos de um professor livre-docente, com grande produtividade, mas que usa outros autores para as conclusões de sua tese? Um professor que trocou a folha de rosto de sua tese de doutorado após a defesa do trabalho e que manteve, no seu currículo, até os primeiros meses do ano passado, um livro inédito como publicado. Navarro distorce o que falo e escrevo e faz referências como lhe convém. Se eu só sabia o conteúdo do "Curso de tupi antigo" de Lemos Barbosa, como corrigi, na sua apostila, a versão para "a mulher é 'alta'", que ele, concursado, doutor, autor de um manual "moderno", ensinava de forma errada aos seus alunos ("ybaté" por 'puku'")? Utilizei o "Vocabulário na língua brasílica", ainda não trabalhado por Navarro de forma satisfatória. "Jururu" vem de "i aruru"? Que se prove! O mesmo vale para "nhenhenhém". Como o "Dicionário" é histórico, cabe um verbete para "ypyra", já que Navarro fez um para "tororõma" com base em "ytororõma", verbete inválido por sinal. A sua crítica a mim dirigida foi para o seu lugar, a lixeira, e de lá excluída. Questiona o meu conhecimento sobre algumas obras recentes: o livro citado de Prezia, sua dissertação, está à disposição do público na Biblioteca Circulante da Mário de Andrade, onde tomei contato com a obra. Eu é que me pergunto se Navarro leu e entendeu "O selvagem" de Couto de Magalhães, haja vista os equívocos que disseminou na mídia há anos atrás. Fala em RDIDP: pesquisar é apresentar como suas conclusões de outrem? Reconheço que é capaz de traduzir um texto do tupi antigo, mas, há 19 anos, ensina de forma questionável, além de espalhar aos quatro ventos erros lamentáveis: "Ipanema: nome de lugar fedorento" ("Tupi or not Tupi", "Veja", São Paulo, Abril, ano 31, n. 50, ed. 1577, 16-12-1998, p. 141). Se eu só li o "Curso" de Lemos Barbosa, nem isso ele aproveitou a contento. Para esse topônimo, Lemos Barbosa alude a duas etimologias, mas, ao longo do "Curso", o que vem é "Ypanema". Arrota saber latim, mas trata "arma, -orum" como palavra da 1ª declinação! Uma vez lhe falei de "cafaeum, -i", e ele me repreendeu, disse que isso não existia e citou o seu antigo superior no seminário: "coffea sororum habet venenum" ("o café das irmãs tem veneno"). "Cafaeum" vem no "Lexicon recentis latinitatis" de C. Egger, p. 115-116, publicação da Editora do Vaticano (2003). Também está na "Sintaxe latina" de G. Lipparini, p. 363 (Trad. A. R. S. Oliveira, Petrópolis, Vozes, 1961), adaptação de manual concebida em e para seminário. Sobre os comentários a mim, devo dizer que sou responsável pela referência dos estudos latinos no Brasil. Sou autor de uma obra que consumiu 12 anos de minha vida, deixando-me sequelas na saúde, adquiridas em viagem de triste lembrança. Há mais de 11 anos trabalho com dificuldade. Pesquisa que me rendeu reconhecimento em Relatório anual da Fédération Internationale des Associations d'Études Classiques (2005), fora 70 citações e remissões em "Dicionário de literatura latina" (M. H. U. Prieto, Lisboa, Verbo, 1996). Não fiz livre-docência nem pós-doutorado, mas tenho a convicção de que o trabalho feito durante 12 anos em 14 unidades federativas do país pode ser comparado a um concurso ou a uma pesquisa. As pessoas não avaliam o quanto isso contribuiu para a minha formação, além de ter se tornado um roteiro para os estudos latinos no Brasil. O falecido Ênio Aloísio Fonda, um dos latinistas mais preparados e críticos que conheci, duvidou que alguém fosse capaz de levar a termo a empreitada que resultou no "Repertório brasileiro de língua e literatura latina (1830-1996)". Depois que o livro foi publicado (Cotia, Íbis, 2006), Ênio Fonda só aumentou a reverência que tinha para comigo e afirmou que o "Repertório" era o seu livro de cabeceira. Quantidade não é qualidade! Vale mais a pena ter um livro do que meia dúzia que não vale um único. Possuo, inédito, o maior levantamento sobre o tupi antigo do início dos anos 30 em diante. O meu currículo não é extenso, mas é sóbrio, o que é uma qualidade, diante do que há por aí. Em outubro do ano passado, dei uma conferência na Academia Brasileira de Filologia, de que sou membro efetivo, acerca de uma Faculdade de curta duração que existiu em São Paulo no início dos anos 30: tenho publicado trabalhos respeitantes ao estabelecimento dos cursos superiores em filosofia, letras e ciências humanas, o que tenho feito nesse sentido é pesquisa de verdade, pesquisa original e rigorosa.* Quando estava terminando o curso de graduação, recebi 7 propostas para ingressar na pós-graduação. Fui aceito para trabalhar em 4 universidades públicas em processos honestos e não equivocados. Não devo ser tão fraco assim. Por ocasião da qualificação, a banca julgou que a minha dissertação deveria ser uma tese. Todos sabem que, no mestrado e no doutorado, se trabalha sob a supervisão de profissionais mais experientes. Sou professor de língua latina, já atuei na pós como docente. Se não atuo como orientador é porque a situação do latim hoje no Brasil é bem distinta do que foi até o início dos anos 70. É uma opção de que não me arrependo: só voltaria a trabalhar na pós como docente de latim. Sobre a minha atividade didática, sempre fui considerado: tenho cartões, correspondências, depoimentos e até medalha providenciada pelo corpo discente.** Voltando ao "Catedrático da USP", é assim que vejo na mídia, sobre caráter, é melhor não dizer nada. Não mudo nada do que escrevi na crítica. A defesa de Navarro não se sustenta: não vou perder e não vou fazê-los perder tempo. Gostaria que Frederico Edelweiss fosse vivo para tratar dos trabalhos de Navarro! Também gostaria de ter conhecido o autor do "Curso de tupi antigo", mas Edelweiss dedicou-se mais ao estudo do tupi antigo, do tupi médio e do tupi moderno e foi menos severo para com Plínio Ayrosa do que Lemos Barbosa. Quantas dicas dei a Navarro! Quantas referências lhe passei! Quanto lhe ensinei dentro do que eu sabia! Quanta decepção tive com a sua pessoa e o seu trabalho!
Saudações de
Eduardo Tuffani.
* Se alguém se interessar, pode ler de minha autoria "Nota pelos cem anos do ensino superior de filosofia no Brasil (1908-2008)", pela "Discurso", São Paulo, USP, v. 39, p. 321-339, 2009; pela "Soletras", São Gonçalo, UERJ, ano 10, n. 20, supl., p. 167-183, jul./dez. 2010 (http://www.filologia.org.br/soletras/20supl/10.pdf). A publicação da "Soletras" dispõe de versão digital e está mais correta, apesar de não ter o "qualis" da "Discurso". O texto é de interesse porque os primeiros cursos de filosofia eram de filosofia e letras, embora predominasse o currículo de filosofia, e o primeiro curso de letras "stricto sensu" se fundou em São Paulo em 1925.
** Na primeira versão da sua "defesa", Navarro zombou do meu trabalho em sala de aula.
P.S.: Não escreverei mais nada para não alimentar polêmica e aborrecer os Senhores. Já que Navarro foi tão rude comigo, grosseiro mesmo, desqualificando-me totalmente, ficam algumas indagações por fazer pois acho que tenho esse direito. O Colégio de Aplicação da USP não está precisando de um professor de geografia? Ele é geógrafo. Como Navarro ama tanto a cultura e a literatura do Brasil, não poderia se mudar para o setor de literatura brasileira, como fez Alfredo Bosi? Formado em seminário, católico fervoroso, não seria o caso de retomar a vida religiosa? O seu "Método 'moderno'" está na 3ª edição, lançado há 14 anos, carente de revisão cuidadosa. Não sou contra o ensino do tupi antigo, mas nessas condições? Talvez fosse mais proveitoso o ensino do guarani moderno, estabelecendo, com muita prudência, relação com o tupi antigo, tão mal estudado no Brasil. Duvido que, no México, Navarro se tornasse referência como aconteceu no nosso triste país. Quem sabe Navarro não se interessa por outras línguas indígenas para fazer um trabalho de campo, por exemplo, entre os marubos ou os jívaros. Como gosta de viajar, poderia fazê-lo entre os daiaques. Sempre quis evitar jornais, televisão, etc. O estrelato não me interessa, e há tantas mediocridades coroadas no Brasil! Para terminar, embora eu não seja cristão, desejo sinceramente que Navarro fique com Cristo, porque acredita e está precisando muito de amparo e conforto: Aryon Rodrigues, Wolf Dietrich, Aline Cruz, Frederico Edelweiss!, Antônio Rodrigues!! Quem será o próximo? Figueira ou Bettendorf? Termino por aqui esta discussão.
II (Cifefil e Orkut) (Tornei a escrever por ter sido xingado pelo "homem de ideias", de "argumentos", e não de "vitupérios")
Na crítica que fiz ao "Dicionário" de Eduardo Navarro, não escrevi nada que ofendesse a sua pessoa. Não tive o mesmo tratamento na sua "defesa", em que procurou me desqualificar o máximo possível, coisa que já fez com algumas pessoas em outras ocasiões. Se ele trocou a folha de rosto de sua tese de doutorado, se tratou, durante anos, um trabalho inédito como livro publicado, não há como negar esses fatos pois há rastros na mídia impressa e eletrônica. De gravidade também foi o uso indevido de outros autores para conclusões, "descobertas", de sua tese, analisada parcialmente: fiz uma amostragem do "Dicionário" propriamente dito. Além disso, há mais conclusão que não tem nada de original, como no caso do "-y-" epentético. Cansado de lidar com alguém que assim procede, aconselhado eu que não escrevesse mais nada, afirmo que, se tiver tempo a perder com alguém dessa natureza, rebaterei um dia todos os pontos por ele "defendidos", uma vez que basta ler a minha crítica, acompanhada das referências, para saber quem é que mente, quem é que está equivocado.*
Apesar desse desgaste, algumas coisas devem ser ditas. Navarro afirmou que nunca dei uma palestra ou conferência. O que se passou em 1° de outubro do ano passado na Academia Brasileira de Filologia foi, portanto, uma alucinação coletiva? Não, foi uma conferência. Navarro faltou com a verdade. Quem é Navarro para falar em orientação? Ele foi descredenciado da pós-graduação (segundo informação de colegas de Navarro): acertada decisão do setor de literatura brasileira. Antônio Rodrigues foi um dos maiores conhecedores do tupi antigo. Talvez seja por isso que Navarro o tenha tratado como um mero instrutor. Da mesma forma, questionou Frederico Edelweiss e Aryon Rodrigues. Diminuiu Lemos Barbosa, a quem deve o núcleo de seu "Método 'moderno'". Sou interessado pelo tupi antigo, mas nunca questionaria de forma imprópria esses três que foram os maiores tupinólogos surgidos no século XX. Como interessado, tenho trabalhos sobre tupi antigo em pouco mais de 50 páginas, e não em 15 como afirmou o "Catedrático". Não posso deixar de mencionar um ponto: Navarro questionou o meu conhecimento das fontes, mas ele deveria estudá-las melhor. A sua etimologia para "amoypyra" é realmente interessante: "os que ficaram no lugar de outros". Quem ficou no lugar de quem? Leia as fontes, Navarro! Trata-se de um povo tupi que ficou na outra margem, esquerda, do Velho Chico, cujo chefe se chamava Amoipira: "o que ficou no lugar de outro"? Penso que não! A etimologia proposta por Edelweiss é mais aceitável.* Estude a fundo, Navarro, é o que lhe falta! Quanto à problemática do tupi, foi até uma disciplina de pós-graduação, mas o conhecimento do "Catedrático" não deve ter chegado lá. Navarro, escreva menos e estude com afinco!
* O que Benedito Prezia afirmou sobre os tupis ou tupiniquins de São Vicente não contradiz Alfred Métraux e Frederico Edelweiss, mas o texto de Navarro não dá essa impressão: quero acreditar que Navarro não entendeu o que leu pois, do contrário, o que pensar?
** O terreno da etimologia de tupinismos é arenoso, mas discutir com Navarro é perda de tempo: ele ensina que "capoeira" vem de "kaá + pûera", quando é mais do que sabido que vem de "kó + pûera"!
III (Orkut)
Na sua "defesa", verdadeira baixaria, publicada com modificações, Navarro me tratou como um ignorante. Em meados do ano passado, fui convidado por ele para fazer parte do corpo editorial de uma revista da USP. O que ele pensava de mim na ocasião? Na minha crítica, há uma falha, falha essa apontada por ele antes da publicação, quando o meu texto foi divulgado: o resto são bravatas de quem não admite erros e fraquezas.* Não corrigi o passo pois dei o trabalho como finalizado. Por causa desse erro, uma nota equivocada de um tradutor, Navarro considerou que eu não tinha experiência nenhuma com fontes primárias para o estudo do tupi antigo. Se tal erro é o bastante para isso, vale lembrar que Navarro cometeu inúmeros erros: é só confrontar as duas versões do "Método 'moderno'". Além disso, errou em traduções, em etimologias... Se eu sou um ignorante, o que ele é? Fui tão honesto que não modifiquei o meu trabalho. Não vejo Navarro há muitos anos. Naquela época, me apresentava como "tupinista emérito": será que estava sendo honesto? Se disser que mudou de opinião a meu respeito, por que me chamou para a revista, solicitando de minha parte trabalho para publicação? Só há um grande tupinólogo vivo, e não é Navarro. Foi graças a ele que Navarro teve coragem de lançar o seu "Método", elaborado com base no "Curso" de Lemos Barbosa, obra de referência, mas envelhecida e desprovida de análise linguística moderna. Hoje Navarro diz que o seu Mestre só conhece bem as gramáticas e o vocabulário coloniais! Parece que só ele é que sabe lidar com as fontes primárias. No seu "Método", porém, há muito a corrigir por tê-las trabalhado de forma equivocada. No século XX, entre os tupinólogos, os maiores foram Frederico Edelweiss, Antônio Lemos Barbosa e Aryon Rodrigues. Os seus trabalhos estão à disposição para serem lidos. Numa dúvida maior, deve-se recorrer a eles. É o que faço. Vou recorrer a Navarro que começou ensinando "aõa", depois "aûã", em seguida "ãûa", quem sabe agora "aûã" de novo? Pelo que eu sei, desde os anos sessenta, a forma reconstituída é "aûã". Fui tão agredido, até xingado por e-mail, que acho que posso dizer isto: algumas pessoas me disseram que "não se gasta boa vela com mau defunto". É a última postagem sobre o assunto pois tudo isso é muito desagradável. Quando falta a educação, é melhor deixar falar sozinho quem apela para o xingamento.
* Navarro desorientou o leitor ao ter afirmado que, em vão, procurei um "verbo" no seu "Dicionário", quando, na verdade, dei por falta de um verbete para "ypyra". As gramáticas coloniais dão "pyra" para "parte próxima", mas Edelweiss e Lemos Barbosa chegaram a "ypyra" ou "pyra" e, para tanto, tiveram seus motivos. Se Navarro tivesse analisado melhor o material coletado para o seu "Dicionário", teria chegado às mesmas conclusões desses dois grandes tupinólogos, autores de trabalhos concebidos de forma séria e honesta. Na maior parte dos pontos, Navarro se defendeu de maneira tortuosa: basta confrontar as citações e as referências. Deve ser difícil para esse professor de tupi admitir o erro, mas é errando que se aprende. Ele interpretou "petymamanymbyra", o "charuto", literalmente "tabaco enrolado", por "fumaça que se inala ao se fumar", influenciado pela entrada do verbete do "Vocabulário" jesuítico "fumaça que se bebe", verbete em que estão "tabaco" e "charuto".
Uma tese de Tupí Antigo I
Resenha de Navarro, Eduardo de Almeida. 2006. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo. cxi + 436 pp. Tese de livre-docência.
Esta resenha trata de uma tese que consiste num Dicionário de tupi antigo (ou Tupinambá), de Eduardo Navarro (de 2006 pela USP). Considerei relevante escrever o texto pois, em se falando de Tupí Antigo, permanecem questões a serem esclarecidas já que a tupinologia, durante muito tempo, não foi norteada pelo conhecimento científico.
por Eduardo Tuffani[1]
A tupinologia só assumiu um caráter científico a partir dos anos 30 do século XX. Foi então que alguns estudiosos passaram a se destacar pelas suas contribuições nesse ramo do conhecimento. Não vou aqui arrolar esses pesquisadores, mas não posso deixar de mencionar, num primeiro momento, os professores Frederico Edelweiss e Aryon Dall’Igna Rodrigues, este último entre nós em plena atividade. Nas últimas décadas, o Tupí Antigo ou Tupinambá não foi tão estudado como até os anos 70 do século passado. É por essa razão que a oportunidade de discorrer sobre um trabalho, uma tese de Tupí Antigo, requer mais tempo no meio acadêmico.
Em primeiro lugar, deve-se esclarecer sobre a natureza do trabalho a ser tratado: é a tese de livre-docência defendida por Navarro na Universidade de São Paulo (2006). Isto deve ficar claro pois Navarro mantém há vários anos, em seu Currículo Lattes, esse trabalho como livro publicado,[2] o que até o início da redação deste texto, 31 de janeiro de 2011, não se justifica uma vez que, até esta data, o livro não foi publicado.[3] Compreendo que Navarro queira divulgar o seu trabalho e que deva fazê-lo, mas não é recomendável dar como publicado um livro que ainda não foi posto à disposição do público. Esse livro pode vir a ser publicado durante a feitura e a publicação deste texto, mas é fato consumado que permaneceu durante anos equivocadamente no Currículo de Navarro.
Conheci Navarro há muitos anos. É um homem culto, inteligente, cultor do vernáculo e de outros idiomas, tendo um mérito que ninguém lhe tira: exemplo da autoeducação, estudou muito o Tupí Antigo pelo manual do Pe. Antônio Lemos Barbosa (1956), estudou a ponto de traduzir de forma satisfatória textos quinhentistas e seiscentistas do Tupí Antigo ou Tupinambá. Para bem desempenhar suas atividades, no entanto, seria bom que Navarro estudasse mais a fundo e desse ao seu trabalho um cunho mais científico. Isto vai ficar mais claro ao longo desta resenha de tese acadêmica. Como exemplo do que foi afirmado, informo que Navarro alterou o título de sua tese de doutorado após a defesa do trabalho, o que é inusitado (1995 a e b). Se não estou equivocado, a alteração foi feita por ocasião do quarto centenário da morte de José de Anchieta. Todos aprendemos errando. Muitos de nós fizemos erratas para os nossos primeiros trabalhos. Navarro, porém, toma atitudes que causam estranheza. Sobre Lemos Barbosa e seu Curso de tupi antigo, afirmou: “Omitiu, ademais, de sua obra, textos fundamentais para o estudo dessa língua, como os de Léry [...]” (1998: xi). Isto não é verdade pois Lemos Barbosa usou e citou Jean de Léry direta e indiretamente (1956: 74, 96, 97, 105, 362 e 446). Mais exemplos serão dados ao longo desta resenha quando forem pertinentes.
A tese é constituída pelo “Dicionário de tupi antigo” (436 pp.) e por um longo texto com “Introdução”, desenvolvimento em vários tópicos, “Conclusões” e “Bibliografia” (cxi pp.). A exemplo do Método moderno de tupi antigo, são numerosas as incorreções, e vale lembrar que o MMTA está na sua terceira edição (2005). Um exame profundo e exaustivo da tese demandaria um tempo considerável, tempo de que não disponho no momento. Assim sendo, intitulei o texto “Uma tese de Tupí Antigo I”, deixando para outra ocasião o exame do dicionário propriamente dito, que aqui será tratado nos seus pontos principais. Também seria interessante que um especialista fizesse uma crítica serena e construtiva para que se reelaborasse o “Dicionário” à luz da filologia e da linguística.
Como são vários os pontos a serem tratados nas cxi pp., decidi levantá-los seguindo o texto desde o seu início. Logo na primeira página,[4] folha de rosto, chama a atenção o subtítulo da tese “a língua indígena clássica do Brasil”. Na p. vi, Navarro compara o Tupí Antigo com o Náuatle, o Quéchua e o Guaraní Antigo. Por razões culturais e históricas, a comparação até se entende, mas o Tupí Antigo não foi tão estudado como esses três idiomas, muito menos se manteve como língua viva por largo tempo após a colonização. O Tupí Antigo persistiu com mais evidência em São Vicente e no Maranhão. A língua falada, porém, logo evoluiu para a Língua Geral, ou melhor, línguas gerais, no sul e no norte da Colônia. No século XVIII, o Tupí Antigo caminhava para uma língua morta, e o seu aprendizado estava comprometido, chegando a ser língua quase intraduzível no século XIX.
O “Índice” que vai da p. iii à p. v deve seguir as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, sobretudo na numeração das seções primárias, secundárias, terciárias, etc. (1978 [1964]: 31-32). Pelas normas da ABNT, não se usa “índice” por “sumário”, como faz Navarro (1978 [1964]: 43).
Na “Introdução”, p. vi, Navarro vincula o Tupí Antigo ao Romantismo e ao Modernismo. Com efeito, houve tentativa nesse sentido, mas o Tupí Antigo só foi “decifrado” a partir dos anos 30 do século XX . Os escritores e os estudiosos anteriores, em sua quase totalidade, confundiam o Tupí Antigo com o Guaraní Antigo e sobretudo com o Nheengatú ou Tupí Moderno. O Tupí Antigo foi “ressuscitado” porque era letra morta, seus textos eram quase incompreensíveis (ver nota 19 deste texto). Na mesma página, Navarro afirma que o Tupí Antigo “é a língua indígena brasileira mais bem conhecida”. A língua que tem esse status é o Guaraní Antigo, que também foi uma língua indígena brasileira. O Guaraní Antigo se beneficiou de uma ortografia mais precisa e foi mais bem descrito tanto em gramáticas quanto em dicionários.
Nas pp. vii e viii, Navarro arrola dicionários de Tupí Antigo, mas parece ignorar o de Moacyr Ribeiro de Carvalho (1987), o que causa espécie pois, apesar de suas limitações, é superior a alguns citados nessa tese que é também um dicionário. Tal falta não se justifica num trabalho dessa natureza.
Em “Os estudos de tupi antigo e a crítica estruturalista”, p. ix, Navarro cita o Prof. Mansur Guérios à frente da cadeira de etnografia e língua tupi da Universidade do Paraná. Na p. xiii, diz que tal cadeira se extinguiu nos anos 90. Segundo comunicação pessoal feita pelo Prof. Aryon Dall’Igna Rodrigues, paranaense, discípulo de Rosário Farâni Mansur Guérios, tal cadeira nunca existiu na atual Universidade Federal do Paraná.
Na p. xi, Navarro alude ao início do curso de tupi no Colégio da Bahia em 1556, cujo primeiro professor teria sido Luís da Grã. O primeiro professor foi Antônio Rodrigues (Edelweiss 1969 a: 74), e, nessa ocasião, Luís da Grã se encontrava na capitania de São Vicente (Cardoso 1992: 26-27).
Na p. xiii, Navarro diz: “Mesmo Aryon Rodrigues faz extrapolações que não encontram amparo nos autores quinhentistas e seiscentistas.” Se tomarmos os trabalhos dos tupinólogos que se destacaram no século XX, veremos que vários deles errraram e se corrigiram: é assim que a ciência progride. Gostaria que Navarro expusesse as extrapolações do Prof. Rodrigues porque as de Navarro são suficientes para uma quarta edição do Método moderno de tupi antigo. A afirmação de Navarro causa surpresa pois foi o Prof. Rodrigues que pacientemente orientou Navarro para que o seu trabalho tivesse um caráter mais científico, sobretudo auxiliado pela linguística moderna. O MMTA foi elaborado com base no Curso de Lemos Barbosa. Lembro-me da sua primeira versão, em formato de apostila, encaminhada ao Prof. Rodrigues, desprovida das correções do próprio Lemos Barbosa (1970: 224-228). Navarro, entretanto, não assimilou todos os ensinamentos que lhe foram feitos pelo Prof. Rodrigues.
Ao tratar de tupinismos, p. xiv, Navarro cita “ficar com nhenhenhém, ficar jururu, ir para a cucuia, chorar as pitangas, etc.”. Certos termos e expressões devem ser evitados pelos tupinólogos pois possuem etimologias ainda não esclarecidas: é o caso de “nhenhenhém” e “jururu”. Na mesma página, entre outras palavras, Navarro arrola “pirão”, de origem Tupí ou africana, mais provavelmente Tupí (Houaiss & Villar 2008 [2001]: 2223), que, no MMTA, por equívoco, afirma proceder de “pirá”... (1998: 546). Também no MMTA apresenta “SAPOTI”[5] como tupinismo (1998: 292, 2005: 246), quando o termo nem sequer é de origem Tupí, mas Náuatle (Houaiss & Villar 2008 [2001]: 2518). O cúmulo das falsas etimologias cabe a “Ipanema”, “upá-nema ‘lago fedorento’” da quinta lição do MMTA (1998: 61-62, 2005: 70-71). Segundo Navarro, assim se chamava a lagoa Rodrigo de Freitas (1998: 62), mas a lagoa nunca teve essa denominação. A Vila Ipanema era uma homenagem ao Barão de Ipanema, daí o nome do bairro: o topônimo tem sua origem na região de Sorocaba, Ypanema,[6] já que de lá veio o homenageado.
Nas pp. xx e xxi, a propósito de Antonio Ruiz de Montoya, Navarro diz: “[...] escreveu o Vocabulario y Tesoro de la Lengua Guarani (o más bien, Tupi), como que identificando o guarani ao tupi ou, ao menos, apresentando-lhes as semelhanças.” Fico perplexo porque, como se sabe, “Ó MAS BIEN TUPI” é um acréscimo do editor, Francisco Adolfo de Varnhagen, na edição de 1876 em Viena-Paris (Edelweiss 1947: 6, Ruiz de Montoya 1876 [1639-1640]: i).
Na p. xxiii, Navarro diz que “arma” está no ablativo, e, assim sendo, o “a” final é longo. Acontece que arma, -orum é uma palavra latina da segunda declinação, e não da primeira. Como pluralício que é, o ablativo deve ser armis. No substantivo arma, o a final é breve.
Em “Os falantes do tupi antigo: origem, história e distribuição geográfica no passado”, pp. xxvii-xxxvii, Navarro trata de oito povos indígenas: Tupiniquím, Potiguára, Tupinambá (da Bahia, do Maranhão e do sul), Temiminó, Caeté e Tupí de São Vicente. Apesar de menos conhecidos, seria interessante tratar também dos demais povos falantes do Tupí Antigo na região da costa brasileira (Métraux 1928: 12-19). Ao discorrer sobre os Tupiniquím, p. xxix, Navarro afirma: “Essas referências a tupiniquins em São Vicente permanecem ainda enigmáticas e somente a descoberta de novos documentos históricos poderá lançar luzes sobre essa questão [!].” É mais do que sabido que os Tupí de São Vicente também eram chamados de Tupiniquím[7] (Métraux 1928: 14-15, Edelweiss 1947: 44).
Ao tratar dos Potiguára, p. xxx, Navarro afirma que a História do Brasil de Vicente do Salvador foi publicada em 1627. Tal obra permaneceu inédita até 1889 quando teve a sua primeira edição no volume 13 dos Anais da Biblioteca Nacional (Lacombe 1974: 164-165). Como cultor do vernáculo, Navarro deve corrigir “Baía da Guanabara” para “Baía de Guanabara” (Martins 1997 [1990]: 11, 51 e 340), cinco vezes nas pp. xxxiv e xxxv, quando trata dos Tamôio ou Tupinambá do sul.
Em “As fontes para o conhecimento do tupi antigo”, p. xl, Navarro se equivoca ao comentar o trabalho do Prof. Carlos Drumond para a edição crítica, segunda, do Vocabulário na língua brasílica: “Em 1952, seu sucessor [de Plínio Ayrosa, editor da primeira edição] na Universidade de São Paulo, Carlos Drumond, publicou uma outra cópia daquele cimélio, existente em Portugal.” Na folha de rosto dessa edição do VLB vem “2.a edição revista e confrontada com o Ms. fg., 3144 da Bibl. Nacional de Lisboa. por CARLOS DRUMOND” (1952). O Prof. Drumond não publicou uma outra cópia do VLB, mas revisou a primeira edição e a cotejou com o manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, tendo preparado uma edição com base em mais de uma fonte, edição corrigida, ampliada e aperfeiçoada. Na p. xlii, insiste em ter sido Luís da Grã o primeiro professor de tupi no Colégio da Bahia em 1556. Isto perde a gravidade diante da falta de esclarecimento do processo para a segunda edição do VLB, para a qual muito contribuiu a Profa Maria de Lourdes de Paula Martins (1949).
Na p. liii, Navarro cita as cartas trocadas entre índios Potiguára como fontes do Tupí Antigo. “Felipe” Camarão sobressai entre os chefes, melhor seria Antônio “Filipe” Camarão (Martins 1997 [1990]: 129 e 358), uma vez que Navarro também é formado em grego clássico. Quanto às cartas, é estranho que Navarro não mencione em seus trabalhos dois títulos a elas referentes (Sampaio 1906, Souto Maior, 1912), chegando a considerar inédito trecho de uma delas no MMTA (2005: 178).[8]
“Perfil do tupi antigo” é a seção que se estende da p. lvi à p. lxxix. Como só há duas análises modernas do Tupí Antigo, de Lemos Barbosa e de Aryon Rodrigues,[9] é evidente que essa unidade da tese muito deve a esses autores, particularmente ao Prof. Rodrigues e à sua Estrutura do Tupinambá (1981),[10] trabalho não citado por Navarro ao longo do texto, cita sim a tese de doutorado do Prof. Rodrigues, p. lvi, trabalho inédito, porém em alemão (1959). As considerações pertinentes a essa seção serão feitas ao tratar das “Conclusões” e do “Dicionário”, uma vez que há pontos dela que se repetem nessas duas unidades.
Nas pp. lxxx a xci está a seção “Estrutura, métodos e procedimentos de elaboração e organização do dicionário de tupi antigo”. Acredito ser a unidade mais bem trabalhada das cxi pp. Foi com base nela que Navarro concebeu o seu “Dicionário”. Penso que não há o que levantar no que diz respeito à lexicologia e à lexicografia e, se houver, não invalida o preparo teórico de Navarro nesses domínios científicos. Vale lembrar que fizeram parte da banca examinadora as professoras Maria Aparecida Barbosa e Maria Tereza Camargo Biderman, especialistas que certamente desempenharam os seus papéis com competência. É lamentável, no entanto, que nenhum especialista em Tupí Antigo tenha participado dessa comissão julgadora. Apesar do arcabouço teórico, Navarro não elaborou o seu “Dicionário” conforme os preceitos da ciência e da filologia. Serve de exemplo isto: para fim de abonação, cita Luís Figueira na p. xc, mas o que se lê em Figueira não é o que Navarro transcreve. Figueira escreve: “Anhé [...] Anhéräú [...] Anhéreá [...] Anhéracoreá [...] Anhérëĩ [...] Anhéracoreĩ [...]” (1878 [1687]: 133-134). O é de anhé[11] de Figueira é transcrito com “~” por Navarro, o que não está de acordo com a fonte utilizada. Para justificar o “~”, Navarro deve fazer uso de outra fonte ou passagem (ver texto referente às notas 21, 22 e 23). Exemplos como esses são muito comuns no MMTA e no “Dicionário”.
Em “A documentação histórica: as edições e os manuscritos utilizados”, p. xciii, Navarro deixa de citar Helder Perri Ferreira como tradutor dos Poemas de Anchieta, assumindo para si a tradução da lírica tupi (1997), repetindo o que faz na terceira edição do MMTA (2005: 450). Na primeira edição do MMTA, a tradução desses poemas apresenta-se como trabalho em conjunto (1998: 533). Isto lembra a alteração do título da tese de doutorado, pequena, no entanto inconveniente. Mas aqui o caso é mais grave, chega a ser preocupante.
Nem sempre é possível consultar as melhores edições, porém como não fazer uso da Notícia do Brasil de Gabriel Soares de Sousa, comentada e anotada por Varnhagen, Pirajá da Silva e Edelweiss (1974 [1851])? O Prof. Edelweiss, para essa edição, escreveu um trabalho indispensável, “Revisão das etimologias tupis”, o melhor que se fez sobre a Notícia (ou Tratado)[12] como fonte do Tupí Antigo (Sousa 1974 [1851]: 439-474).
A História do Brasil de Vicente do Salvador, “publicada em 1627” (p. xxx), é aqui tratada como um códice, 49, da coleção Livros do Brasil do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (p. xcv). De nada adianta consultar as melhores fontes se delas não se faz uso adequado. No “Dicionário”, p. 309, no verbete “pa’ama”, Navarro o abona com passagem dos “Poemas brasilicos” de Cristóvão Valente, mas o que se lê em Valente não é o que Navarro transcreve pois Valente escreve “xe nhëéng päâmã” (Catecismo 1898 [1686]: n.p.). Na transcrição de Navarro, o g não está presente, e o a final deixa de ser nasal: “che ñeéng paáma ‘a minha voz confusa’”, na edição de Plínio Ayrosa (1941: pp. 21 e 29), lembra a lição de Navarro “xe nhe’ẽ-pa’am-a”, exceto o g presente e as ausências da oclusiva glotal ’ que registra Navarro entre os dois ee e os dois aa. Ayrosa afirma: “Paáma é o verbo paã [forma Guaraní], engasgar-se, confundir-se, etc.” (1941: 25.) Acompanho o raciocínio de Navarro que traduz o trecho por “minhas palavras engasgadas”. O estudo de outras línguas da mesma família pode auxiliar: o termo Parintintín “pa’am” ou “ma’am” se traduz por “pregar, ficar preso; obstruir; atrapalhar” (Betts 1981: 158). Isto tudo parece procedente, mas o fato é que, no original, há um g, e o a final é nasal.[13] Num dicionário dessa natureza, a abonação deve reproduzir fielmente o que está na fonte primária.
A unidade intitulada “Conclusões”, pp. c-ciii, parece ser a mais problemática não só pelos seus equívocos, mas também por “conclusões” questionáveis. Navarro assim começa na p. c:
“Após muitos anos de pesquisas, em contato com raríssimas edições e manuscritos quinhentistas e seiscentistas, podemos afirmar que lemos e analisamos quase tudo o que existe escrito em tupi antigo. É certo que novos textos poderão ser revelados no futuro. Mas acreditamos que não alargarão consideravelmente o que se conhece agora, com este dicionário, do léxico dessa língua.
Reunimos e organizamos tudo o que estava disperso, disseminado por obras diversas, algumas quase inacessíveis ao grande público e durante sete anos procedemos à organização de uma grande massa de informações que nunca antes haviam sido analisadas. Textos que jaziam mal traduzidos nas páginas dos viajantes e cronistas, textos que não foram até hoje traduzidos e, às vezes, nem sequer publicados, agora são utilizados largamente em nosso dicionário nos exemplos ilustrativos de que nos servimos.”
Em “A documentação histórica”, p. xcii, Navarro delimita no tempo as fontes utilizadas, séculos XVI e XVII, “o período histórico em que o tupi antigo foi falado”. Se leu tanto, onde está karaku? São duas as ocorrências em Claude d’Abbeville.[14] Se analisou tudo, por que “karamemûã” (p. 188), e não “caramémo ‘karamemó’”, como está em Léry (1578: 342, apud Nogueira 1876: 12)?[15] Embarcação indígena, “maracatim” é um tupinismo do português do Brasil, cuja pronúncia parece ter sofrido pouca alteração, palavra Tupí, documentada em Pernambuco e no Maranhão, não tem verbete no “Dicionário” pois as fontes são do século XVIII.[16] Na mesma página, Navarro dá prosseguimento:
“Com o Dicionário de Tupi Antigo (título de livro que em breve publicaremos) e durante sua feitura pudemos alargar o conhecimento de processos gramaticais daquela língua. Assim, não somente o léxico, mas também a gramática dessa língua ficou mais bem conhecida com este trabalho, donde retiramos informações para descrevê-las pela primeira vez na 3a edição de nosso Método Moderno de Tupi Antigo (Editora Global, São Paulo, 2005), que, assim, muito se beneficiou das descobertas que fizemos durante nossas pesquisas.”
Não há dúvida de que a terceira edição do MMTA é uma versão reelaborada, mas como explicar a manutenção de uma nota para suí?: “a posposição suí tem um sentido especial, que até agora não foi estudado: ela pode introduzir uma finalidade negativa, sigificando para não” (1998: 520, 2005: 439). No Curso de Lemos Barbosa, para suí, lê-se “‘para não’: a-só nde repîaka suí: vou para não te ver” (1956: 72). A mesma citação aparece na primeira edição do MMTA, na edição “revista e aperfeiçoada”, Navarro abona a nota com outro exemplo, mas mantém para si o crédito da “descoberta”.
Ao arrolar as suas conclusões, na mesma página, a propósito de uma de suas descobertas, Navarro começa: “Soubemos da existência do que chamamos ‘gerúndio causal [...]’”. Embora Lemos Barbosa não ensine tal emprego em “Sintaxe do gerúndio” (1956: 168-173), em “Conjugação negativa”, apresenta: “No gerúndio, infinito e conjugação subordinada, a negação dupla é nda – eym- ruã [...]” (1956: 354). Entre os exemplos, o autor do Curso cita “nda gûi-xó-eym-a ruã, a-s-epîak: não porque não fui, eu o vi” (1956: 355). Note-se que o exemplo é da lavra de Lemos Barbosa pois não há abonação com fonte primária. Se não registra o emprego na lição sobre o gerúndio é porque deve ser muito menos frequente, como o próprio Navarro admite no MMTA: “Tal emprego [do gerúndio causal], porém, é mais raro [...]” (2005: 306). Na sua tradução do Catecismo brasílico de Anchieta, o Pe. Armando Cardoso também identifica esse emprego do gerúndio:
“1. M Mbaépe Cristãos jekuapába? 1. M Qual é o sinal dos Cristãos? D Santa Cruz. D A Santa Cruz. 2. M Maránamope? 2. M Por quê? D Ipupé omamómo Jandé Jará Jesus Cristo [...] D Porque nela morreu Nosso Senhor Jesus Cristo [...]” (1992 a: 186).
O gerúndio causal não é novidade para quem estudou o Curso de Lemos Barbosa nem para quem leu as traduções de Armando Cardoso. Aliás, essa passagem de Anchieta serve de exemplo para Navarro no MMTA ao tratar dos empregos do gerúndio (2005: 159). O Catecismo brasílico de Anchieta só foi divulgado com essa publicação de Armando Cardoso.
Fruto de “descoberta”, p. ci, uma outra conclusão que merece esclarecimento diz respeito a “îakatu1 (adv.) – por todo (os, a, as), em todo (os, a, as)”. Acerca do que afirma Navarro:
“Nenhum dos tradutores de Anchieta atinara com o seu significado, que somente com este dicionário ficou evidenciado em virtude do cotejo de diferentes textos, donde pôde ressumar o verdadeiro sentido do lexema.”
Ao discorrer sobre “Sujeito incorporado”, Lemos Barbosa diz: “O prefixo mo-, do sujeito e verbo incorporados, forma um novo verbo transitivo: mo-ugûy-syryk: fazer escorrer sangue de ou a” (1956: 209). O exemplo que se segue foi tirado do Catecismo de Antônio de Araújo: “s-eté îá-katu-pe gûá i mo-peré’-pereb-i i mo-ugûy-syryk-a? (Ar. 85): chagaram-lhe todo o corpo, fazendo escorrer o seu sangue?” (1956: 209). Armando Cardoso publicou de Anchieta a Lírica portuguesa e tupi, em que também identifica tal significado no poema que começa por “Oré rausubá jepé ‘De nós compadecedor’”: “Oroausúb katú uitekóbo, xe rekobé jakatú [...] Ficando eu a bem te amar, por todo este meu viver [...]” (1984: 158 e 160). Estas lições não tinham sido bem aprendidas por Navarro porque na sua tradução da lírica tupi de Anchieta não se vê tal entendimento: “Oro-aûsu-katu gûi-t-ekóbo, xe r-ekobé îa-katu [...] Estou amando-te muito, como a minha própria vida [...]” (1997: 102). A passagem vem assim no texto original: “Oroauçub catu guitecobo xe recobe yacatu [...]” (Anchieta 1989 [1954]: 93). O que causa perplexidade é Navarro abonar o verbete de îakatu com, entre outras, as passagens de Anchieta e de Araújo, uma traduzida por Lemos Barbosa, a outra, por Armando Cardoso. E de gravidade é o fato de Navarro, para Anchieta, abonar com a “sua” tradução: “Estou amando-te muito, por toda a minha vida” (pp. ci e 132), o que não condiz com o que está na sua publicação. Tal significado de îakatu era conhecido, mas foi apresentado como descoberta, inspirado em tradução de outrem.
Após algumas considerações pertinentes, Navarro, pp. cii-ciii, prosseguindo em suas conclusões, trata da contribuição da sua tese para a etimologia dos tupinismos do português do Brasil:
“Nosso dicionário, apresentando etimologias de muitos lexemas, permite um melhor conhecimento do significado das palavras portuguesas de origem tupi, geralmente muito mal explicadas nos dicionários contemporâneos. Nenhum dos dicionaristas do século XX, desde Nascentes até Aurélio Ferreira atinou, por exemplo, com a etimologia do substantivo caipira. A consulta ao dicionário e o conhecimento de certos fenômenos da língua revelam-na: kopir (v. intr.) – lavrar a terra, fazer lavoura, fazer roça; carpir, roçar: A-kopir. – Faço roça. (VLB, II, 19) [...][17] Caipira provém seguramente de kopira, o que carpe, o roceiro, do verbo tupi kopir, fazer roça.”
Com efeito, a etimologia de muitos tupinismos está por esclarecer, mas a responsabilidade disso não cabe aos professores de português, e sim aos tupinólogos carentes de espírito científico. Quais são esses fenômenos da língua? A respeito de “caipira”, Antônio Geraldo da Cunha, no seu Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, afirma que “faltam, todavia, os elos da cadeia evolutiva, pois a documentação histórica é tardia” (1982 [1978]: 83). Em Lições de etimologia tupi, o Prof. Edelweis dá a sua contribuição para a etimologia de “caipira”:
“Caipira – é outro enigma etimológico à espera de solução defensável. [...][18] Sendo, pois, a etimologia de caipira um enigma intrincado, o máximo que se pode fazer é juntar às opiniões anteriores mais outra, que talvez não satisfaça, mas que, pelo menos, não violenta os preceitos gramaticais tupis. Existe no guarani o termo ypy, correspondente ao tupi ypyra – perto de, junto de, parte próxima. Diz Montoya que a mesma palavra se emprega para designar o que trata de, o que toma conta de. Se combinarmos ypyra com kaá – teremos kaá-ypyra. Mais provável, entretanto, é que, pelo sentido de caipira o termo proceda de ko-ypyr-a, o que cuida, o que trata de roça, o rústico. Ko transmudou-se em ka nos termos: capoeira, de kopûera = roça antiga, roça abandonada e capixaba, de kopisaba ou kopixaba = a roça, a roçagem de mato. Nada de extraordinário haveria, pois, em kaypyra, ao invés de ko-ypyra.” (1986: 12-14.)
Para uma palavra tida como de origem controvertida (Cunha 1982 [1978]: 83), deve-se admitir que a hipótese de etimologia de “caipira” elaborada pelo Prof. Edelweiss chega a ser original e mesmo plausível: até onde se sabe, é a mais viável das propostas de etimologia para o termo em causa. No “Dicionário” de Navarro, em que se leram e se analisaram todas as fontes disponíveis, não há verbete para ypyra com tal significado. No Confessionário brasílico de Anchieta se encontra “4. Ndeíteé abá [...] sóypýra abaré supé [...] 4. Por isso o homem [...] se aproxima do sacerdote [...]” (1992 b: 77). Nas “Notas” do tradutor, Armando Cardoso, lê-se “4. [...] só-ypýra: ir perto, aproximar-se” (1992 b: 80). A passagem deve ser considerada para o significado de ypyra.
Entre outras conclusões, há uma que, p. ciii, na verdade, nem é uma conclusão, mas um comentário equivocado:
“Também poderão beneficiar-se, doravante, os descendentes de grupos indígenas da costa, notadamente os potiguaras da Paraíba, os tupiniquins do Espírito Santo, os pitaguaris do Ceará, com a dilatação do conhecimento do tupi antigo representado por nosso dicionário. Eles são um dos poucos grupos indígenas do Brasil que, tendo perdido seu idioma nativo, teriam condições de recuperá-lo, haja vista o grande conhecimento que hoje temos dele [...] o tupi antigo poderia ainda conhecer algo semelhante ao que ocorreu com o hebraico em Israel.”
No seu Curso de tupi antigo, Lemos Barbosa ensina que: “Estudar tupi é investigar a língua que os índios realmente falaram e não excogitar como a falariam hoje. Proceder de outro modo é falar português... com palavras tupis.” (1956: 437.) Acerca da versão do português para o Tupí Antigo, o autor do Curso afirma: “O certo é que essas expressões [exemplos de neologismos], no sentido que se lhes dá, não são tupi. Podem divertir, mas carecem de valor lingüístico.” (1956: 437.) De fato, torna-se preocupante o interesse daqueles que estudam o Tupí Antigo como uma língua viva. Como falar e escrever em Tupí Antigo se não se dispõe de curso, gramática e dicionário atuais e confiáveis para o estudo da língua? E mesmo que houvesse, não seria recomendável estudar Tupí Antigo para falá-lo ou escrevê-lo. O próprio Navarro se corrigiu muitas vezes após a publicação do MMTA, e a terceira edição do seu manual carece de revisão cuidadosa. Navarro contra tudo e contra todos ensina que o radical de “vermelho” é “pyrang” (1998: 27, 2005: 41, 2006: 351), não levando em conta sequer o estudo comparativo da família linguística Tupí-Guaraní, que confirma a forma pirang, ortografia adaptada, há muito tida como legítima (Mello 2000: 188). Penso nos Potiguára da Paraíba que começaram a reaprender a sua língua com a segunda edição do MMTA em 2003 (Índio 2003: 76) e, em 2005, com a terceira edição do MMTA, tenham percebido que muito do que aprenderam não estava correto. Por ocasião da estreia de Hans Staden, o Jornal do Brasil publicou uma reportagem, em que se dava atenção ao fato de o filme ser falado em Tupí Antigo: “‘Em Hans Staden fala-se a verdadeira língua brasileira’, atesta o professor Eduardo Navarro, especializado em tupi-guarani.” (Dia 2000: 1.) Quem assistiu ao filme viu Hans Staden se dirigir à praia exclamando: “Kurusu! Kurusu! Kurusu!” Portuguesismo no Tupí Antigo, kurusá é “cruz”, kurusu é no Guaraní, ybyraîoasaba também traduz a ideia significando “paus cruzados”. Também preocupa o que surge na esteira dos que tratam o Tupí Antigo como uma língua viva. O Sr. Ozias Alves Jr. publicou Parlons nheengatu (2010), em que trata muito do Tupí Antigo nem sempre com felicidade.[19] A partir da publicação do Vocabulário na língua brasílica (1938), a pesquisa e o ensino do Tupí Antigo ganharam profundidade, e, com a segunda edição do VLB (1952-1953), houve necessidade de revisão do que se tinha produzido. Lemos Barbosa tanto tinha consciência das falhas do seu Curso que fez uma longa errata ao seu trabalho mais divulgado, o Pequeno vocabulário tupi-português (1970: 224-228). Apesar disso, o Curso, mesmo envelhecido e desatualizado, continua a ser o que de melhor se fez como manual: curso, gramática, exercícios, textos e vocabulários. A questão é que Lemos Barbosa já não está conosco porque seria interessante uma nova edição do Curso de tupi antigo.
Não há como negar os anos dedicados por Navarro à feitura do seu “Dicionário”. De fato, é o dicionário de maior volume feito sobre o Tupí Antigo ou Tupinambá. Também se deve reconhecer que o léxico e a gramática do Tupí Antigo estão mais acessíveis, dada a extensão do “Dicionário de tupi antigo”. Uma contribuição relevante foi a participação de profissionais de zoologia e de botânica ligados à USP na elaboração de verbetes do “Dicionário”. Não vá alguém pensar, portanto, que, com esta resenha, há a intenção de questionar a aprovação de Navarro no concurso de livre-docência do qual participou. Como o trabalho, porém, poderia ter um caráter mais científico, serão levantados pontos que, se tivessem sido considerados, teriam dado ao “Dicionário” a confiabilidade de que precisa.
Como se trata de um dicionário histórico, o “Dicionário de tupi antigo” deve ter os seus verbetes abonados com reproduções fiéis ao que está nas fontes primárias e secundárias, mas não é o que se encontra. Por que não se orientou pelo Dicionário histórico das palavras potuguesas de origem tupi? Neste Dicionário, a primeira e mais antiga abonação para “cupuaçu” vem assim: “1817 Casal Corografia Brazílica II. 278: Entr’outras fructas mais nomea-se [...] o cupuassú [...]”. Após a abonação feita com a obra de Aires de Casal, há mais três também do século XIX: “copuassú”, de 1833, “copú-assús”, de 1886, e “copús-assús”, de 1888. O verbete se encerra com duas abonações do século XX: “cupuassu”, de 1928, e “cupuassú”, de 1938 (Cunha 1982 [1978]: 121). É assim que se faz um dicionário dessa natureza, um dicionário histórico, como Navarro admite na p. vi:
“Algumas das obras daqueles autores foram publicadas ainda no período colonial, outras somente no século XX. Nosso trabalho, nelas fundado, é, assim, de cunho eminentemente filológico, e seu instrumental são textos antigos e não o contato com falantes da língua. Trata-se, portanto, de um dicionário histórico.”
Para “kupu’ygûasu ‘cupuaçu’”, o “Dicionário” não traz abonação original nem transcrição moderna, p. 208, com citação de d’Abbeville, mas o que se lê no original é “COPOUIH OUÄSSOU – arbre” (1975 [1614]: 172). Para “kupu’y’aîuba (lit., cupiúba do fruto amarelo)”, também não há abonação original nem transcrição moderna, p. 208, com citação também de d’Abbeville, em que se lê “COPOUIH AIOUP – arbre” (1975 [1614]: 172). Aproveitando a obra de d’Abbeville como fonte para citação, podem-se também arrolar, entre outros, “murisi ‘murici’”, p. 275, mas o original dá “MORECY” (1975 [1614]: 174]), “îunypaba ‘jenipapo’”, p. 171, “IUNIPAP” (1975 [1614]: 169). Tratando-se de um dicionário histórico, são inconcebíveis falsas etimologias como, entre outras, “itagûasu” por itãgûasu na p. 166: “lit., pedra grande) (s.) – mexilhão d’água doce (o maior) (VLB, II, 37)”. Itãgûasu significa “concha grande”: itã + gûasu, e não itá + gûasu. Mboîgûasu é “cobra-veado”, tradução literal, mboî + gûasu = sygûasu (Edelweiss 1969 b: 39-40). “Sucuri ou cobra-de-veado”[20] está no verbete “mboîgûasu1 (lit., cobra grande)”, p. 231, etimologia equivocada pois “cobra grande” é mboîusu (mboî + usu). O grande problema é que, no “Dicionário”, as abonações originais, quando existem, são transcritas com ortografia atualizada. O DHPPOT de Cunha (1982 [1978]) apresenta falhas, porém elas são compensadas com documentação fidedigna, daí o mérito da obra. Pode parecer exagero, mas não é, todos os verbetes do “Dicionário” devem ser revistos para que sejam refeitos com abonações originais. Na p. 17 vem o segundo verbete para “Aîurûasu”: “Aîurûasu2 (lit., papagaio grande) (s. antrop.) – nome de um índio (D’Abbeville, Histoire, 184)”. Na fonte para a abonação, o que se lê é: “AIOUROU-OUASSOU” – Principal... c’est à dire le grand Perroquet.” (1975 [1614]: 143.) O verbete deve ser corrigido para: “Aîuruûasu2 (lit., papagaio grande) (s. antrop.) – nome de um chefe tupinambá do Maranhão (D’Abbeville, Histoire, 184)”. Navarro usa a edição de 1614, daí a diferença de paginação. “Aîurûasu” é inadmissível, a transcrição correta é Aîuruûasu, Aîurugûasu no padrão da língua. Por falar em correção, Navarro, zeloso do português, dedicado ao latim e ao grego clássico, deve preferir “fleuma” a “fleugma” (Houaiss & Villar 2008 [2001]): 1356), p. 82, em “ekombegûé (lit., modo de ser lento)”. Na p. 148 está o verbete: “îemopyrang (v. intr.) – pintar-se de vermelho, avermelhar-se: Moraseîa é i katu, îegûaka, îemopyranga... – A dança é que é boa, enfeitar-se, pintar-se de vermelho. (Anch., Teatro, 6)”. No texto original, o que vem é: “Moraçeyae ycatu yeguaca, yemopirãga [...]” (Anchieta 1989 [1954]: 138). O verbete corrigido é: “îemopirang (v. intr.) – pintar-se de vermelho, avermelhar-se: Moraseîa é i katu, îeguaka, îemopiranga... A dança é que é boa, enfeitar-se, pintar-se de vermelho (Anchieta 1989 [1954]: 138)”. Isto no caso de haver transcrição atualizada com base na edição da Prof. Paula Martins porque a de Navarro, por ele citada, é falha nessa passagem.
Lemos Barbosa ensina: “Î e nh às vezes se permutam. Junto de nasal é preferido nh [...]” (1956: 36): nh é um alofone usado em tal contexto. Linguisticamente tratando, o que se espera é nhõ, e não nhó, daí o e tilado para anhé, mas a fonte não pode ser alterada em função disso. A reprodução ou a transcrição devem ser fiéis ao original, o que não se vê no “Dicionário”. O e aparece tilado, entre outros, nestes exemplos de Figueira: “nhé”[21] (1878 [1687]: 144), “ranhé”[22] (1878 [1687]: 144), respectivamente nas pp. 286 e 357. Na gramática de Anchieta se lê “ndénhóumê ejucâ, não o mates tu sô” (1990 [1595]: 22v). Tanto o o de nhó[23] quanto o e de umé[24] estão tilados na p. 410 do “Dicionário”. Quanto a “nhõ”, é o que se espera junto de nasal, mas aqui não tem apoio na fonte. O é e o ó são muitas vezes tilados no “Dicionário”, como no caso de umé, e, na p. 28, vem “amõ” por “amó”,[25] este no Catecismo brasílico de Anchieta (1992 a: 163). Manó ou manõ[26] são ambos usuais, mas o original deve ser mantido. Na p. 218 do “Dicionário” se lê “manõ”, mas em Figueira vem “manó” (1878 [1687]: 69). Falando de linguística, embora o trabalho seja de cunho filológico, não se pode abrir mão dela, como para esta entrada: “ãûa (pron.) – ele (es, a, as) (VLB, I, 109); esse (es, a, as); aquele (es, a, as), isso, aquilo (principalmente no plural)”. A abonação do VLB não traz transcrição. Há uma do Confessionário de Anchieta e outra da gramática de Figueira, as três na p. 64. No VLB se lê: “Aoã [...] Aõaae [...] Aõa [...]” (1952: 109). “Aõa” se encontra em Figueira (1878 [1687]: 81). Na edição para Anchieta vem “aú ã”[27] (1992 b: 102). Os professores Edelweiss e Aryon Rodrigues, especialistas na família linguística Tupí-Guaraní, reconstituem esse termo por “aûã” (Edelweiss 1969 a: 145) e “awã” (Rodrigues 1981: 17). No Parintintín, há para “essa” “agûá”, adaptação do original “agwa” (Betts 1981: 24). Deve-se ler a bibliografia sobre o Tupí Antigo para elucidar também questões de natureza filológica. O verbete que se segue vem na p. 302: “oî (interj.) – oi! (respondendo a chamado): – Aîmbiré! – Oî! – Xe pysyrõ îepé! – Aimbirê! – Oi! – Ajuda-me tu! (Anch., Teatro, 48)”. Lemos Barbosa escreveu “O auto de São Lourenço”, mas parece que os tradutores de Anchieta não leram ou não concordaram com o comentário feito a respeito dessa passagem:
“Quando Saravaia relata o que fez para induzir aqueles índios numa cilada, o Anjo já não suporta. Deante da confissão espontânea e cínica, amarra Saravaia para mandá-lo ao fogo eterno. Saravaia grita por socorro a Aimbiré: 554. [–] Aimbire. [–] Aimbiré! [555.] Aimbiré: – Oi11 [...] – Úi! [...] 11 A interjeição não está arrolada nas artes e dicionários, mas o seu sentido é óbvio.” (1950: 216.)
“Ui!” porque ambos os demônios agora se encontravam presos. Aimbirê tinha sido preso com Guaixará pelos santos (v. 476). Aimbirê não estava em melhor condição do que Saravaia e já tinha expressado a sua dor (v. 482). A razão parece caber a Lemos Barbosa pois, no Tesoro de Ruiz de Montoya, encontra-se: “Oî (Dize la muger que se duele), Ay.” (1876 [1639]: 256.) No verbete “îur/ur(a) (t, t) (v. intr. irreg.)” [...] “2) fórmula de saudação para o que chega: Ere-îu-pe? – Pá, a-îur. – Vieste? – Sim, vim. (Léry, Histoire, 341)”, p. 172 do “Dicionário”, “a-îur” não está como a fonte que traz “aiout ‘a-îut’” (Léry 1578: 341, apud Nogueira 1876: 10, Barbosa 1942: 308, Edelweiss 1969 a: 97).[28] Numa das conclusões da tese, p. cii, lê-se: “Também de grande valia será o Dicionário de tupi antigo para o melhor conhecimento das variantes dialetais da língua da costa do Brasil nos primórdios de sua história.” Assim como karamemó, aîut, entre outros, sem análise para descrever o falar dos Tamôio ou Tupinambá do sul. Muitos verbetes merecem revisão, de que são exemplos “agûarakynhusu” e “petymamanimbyra”, respectivamente nas pp. 11 e 319. O segundo é “petymamanimbyra (s.) – fumaça que se inala ao se fumar (VLB, I, 144)”:
“O Vlb. evita registrar práticas pagãs; traz, entretanto, o nome do charuto – pety-mamanë[m]byra, no verbete fumaça que se bebe. A tradução literal do termo é tabaco enrolado. Gabriel Soares traz a descrição do charuto indígena no cap. 61 da II. parte.” (Edelweiss 1972: 71.)
Para Edelweiss, “-ë-” = “-y-”, portanto, o verbete revisto é “petymamanymbyra (s.) – charuto (VLB, I, 144)”. “Agûarakynhusu” também deve ser revisto com base em estudo do tupinólogo gaúcho, radicado na Bahia:
“A forma ‘asú’ em Piso e Marcgrave [Grafia de Piso e Marcgrave] aguaracuinha-acu [Forma tupi em nossa grafia fonêmica] – agûará-kyynh-usú [Tradução portuguêsa] – erva moura (25) [...] (25) Há inversão de letras nesta palavra, de que a maioria dos compendiadores não se dá conta: aguara-ciunha-acu está por aguara-cuinha-acu, mais exatamente, agûará-kuynha-asú por agûará-kyynh-usú, que êste último é a forma correta em tupi. A tradução literal é pimenta grande do guará (= cachorro do mato ou lôbo). Inácio de Menezes (Flora da Bahia) vê sinonímia em aguaraquiunha açu (sic!) e crista-de-galo. O Vlb. traduz agûará-kyynha por erva-moura. A forma aumentativa correta é agûará-kyynh-usú.” (Edelweiss 1970: 80.)
O verbete “agûarakynhusu (s.) – aguaraquiá-açu, fedegoso, provavelmente uma borraginácea da subfamília das heliotrópias, talvez o Heliophytum indicum De Cand. (Piso, De Med. Bras., IV, 198)” tem entrada por corrigir.
Muito cuidado deve ser tomado ao lidar com fontes subsidiárias pois corre-se o risco de tratar um tupinismo como vocábulo do Tupí Antigo. Na p. 132 do “Dicionário” está o verbete “îakûasu (lit., jacu grande) (s.) – jacu-açu [...] (Sousa, Trat. Descr., 230)”. “Îakûasu” não pode ser porque o correto é îakugûasu: o termo de Sousa já traz consigo o sinal da evolução do Tupí Antigo para a Língua Geral, devendo ter a sua entrada corrigida. Continuando com os tupinismos, p. 122, vem “guti (s.) – o mesmo que gûeti [oiti] (v.) (Sousa, Trad. Descr., 194)”: “guti” é um tupinismo pois não pode ser palavra do Tupí Antigo, o que torna a entrada desnecessária. No DHPPOT de Cunha, todas as abonações de “oiti” são de fontes subsidiárias, admitindo-se o étimo “gûiti”, transcrição do que vem nesse Dicionário histórico (1982 [1978]: 221). No “Dicionário” de Navarro, arrolam-se os vocábulos originados de “gûeti” (4, p. 121) e de “gûiti” (5, pp. 121-122). Na p. 70 do “Dicionário” se lê “bakori (s.) – bacuri, planta da família das gutíferas (Silveira, Relação do Maranhão, fl. 11v)”. Também com abonação em fontes subsidiárias, o étimo que se defende é “ybakuri”, transcrição do original (Cunha 1982 [1978]: 68). A fonte usada por Navarro para “bakori” está entre as de Cunha. Em d’Abbeville vem o que se segue: “PACOURY – arbre. – ...Son fruict est gros comme deux poings qui a la peau espesse d’une demi poulce [...]” (1975 [1614]: 171-172). Para “pakury”, Navarro tem o verbete: “pakury (s.) – bacuri, bacurizeiro, árvore frutífera muito grossa e alta, da família das gutiferáceas (Platonia insignis, Mart.) [...] (D’Abbeville, Histoire, 222)”. É a mesma árvore frutífera de que trata Cunha. Se d’Abbeville estiver certo,[29] por que as duas entradas? Não é “bakori” um tupinismo? Segundo d’Abbeville, no Tupinambá do Maranhão, o nome é pakuri, árvore típica da região amazonense. “Abá-pe?” é verbete na p. 6, mas por que razão? se há remissão dispensável para “abá? ‘quem?’”.
Navarro afirma, p. vi, sobre a extensão do seu “Dicionário” após dizer que o tupi antigo “é a língua indígena brasileira mais bem conhecida”:
“[...] atingimos nele quase oito mil palavras-entradas, superando de longe, nesse aspecto, todas as outras produções lexicográficas congêneres, mesmo o Tesoro de la Lengua Guarani de Antonio Roiz de Montoya e o Dictionnaire Wayãpi-Français, de Françoise Grenand, que ultrapassam cinco mil entradas.” [Não se pode comparar a obra de Navarro com a de Ruiz de Montoya! Este passou décadas entre os Guarani, e suas obras até hoje são referências, aquele concebeu um manual que, anos depois de seu lançamento, mostra-se falto de acabamento.]
Se o Tupí Antigo é tão conhecido, por que se contam nos dedos das mãos os tupinólogos do século XX? Por que só houve duas gramáticas publicadas no período colonial? Por que a obra poética de Anchieta só foi traduzida no século XX? E houve o que rever nas traduções. Por que o Catecismo dos jesuítas (1686 [1618]) até hoje não foi teve tradução publicada? Por que o Vocabulário dos jesuítas só foi publicado no século XX (1952-1953 [1938])? A cultura brasileira faz triste figura nesse quesito diante do Paraguai, do Peru e do México. O País inteiro fala de uma língua tupi-guarani, ignorando as diferenças entre o Tupí Antigo e o Guaraní Antigo, misturando-os com o Nheengatú e o Guarani Moderno ou Paraguaio, fato comum até no meio acadêmico, tema que já foi tratado exaustivamente por vários tupinólogos no passado e no presente. Até a p. 186 do “Dicionário”, 42 % das 436 pp., há cerca de 650 zoônimos e fitônimos, 35 antropônimos e 15 gentílicos.[30] Há fortes indícios de entradas desnecessárias, e o “Dicionário” carece de revisão, o que pode diminuir o número de entradas. O que são “quase oito mil”? já que Navarro por vezes não é preciso. Muitos dos zoônimos e fitônimos são de origem Tupí, mas as fontes respeitantes são subsidiárias, trata-se, pois, de tupinismos. Se não há fonte primária que os abone, não devem ser arrolados num dicionário de Tupí Antigo. Quanto aos gentílicos, Alfred Métraux enumera quinze tribos falantes do Tupí Antigo, de que se conhecem nome e localização na costa brasileira e vizinhanças (1928: 12-19).[31] Das quinze tribos, Navarro tem verbetes no seu “Dicionário” para treze, não incluindo “Ararape” (Cardim 1980 [1925]: 103, Métraux 1928: 14) e “Guaracaio” ou “Itati” (Cardim 1980 [1925]: 102, Métraux 1928: 19). Vizinhos dos Potiguára, os Viatã são contemplados com dois verbetes na p. 408:
“u’iatã1 (lit., farinha dura) (s.) – nome de grupo indígena que vivia no século XVI próximo dos potiguaras da costa nordestina (Cardim, Trat. Terra e Gente do Brasil, 121)
U’iatã2 (lit., farinha dura) (s. etnon.) – nome de antiga nação indígena da Paraíba (Cardim, Trat. Terra e Gente do Brasil, 121)”[32]
Navarro dá entradas para tribos não falantes do Tupí Antigo, deixa de mencionar “Ararape” e “Itati” e faz dois verbetes para “Viatã”. Note-se que “u’iatã ‘farinha dura’” tem abonação na p. 407 em “u’i ‘farinha’”. Na p. 31 vem “amoypyra (s. etnon.) – (nome de nação indígena (Vasconcelos, Crônicas (Not.), I, § 151, 110)”, que também deve ser levado em conta para para ypyra:
“Amoipira. – A palavra é composta de amó = outro, outra, da outra, e ybyra = margem, com possível influência de ypyra = parte próxima. Como se vê no texto, o gentílico proveio do nome do maioral da tribo. Chamou-se, portanto, O(s) da outra margem.” (Edelweiss 1974: 473-474.)
O verbete “ka’aeté2 (lit., mata verdadeira)” é seguido de outro, p. 177, “ka’aeté3 (lit., mata verdadeira) (s. etnon.) – caeté, nome de antiga nação indígena da costa (Cardim, Trat. Terra e Gente do Brasil, 122)”. As formas para o gentílico são “Caité” e “Caaété” (Cardim: 1980 [1925]: 102, Métraux 1928: 13). Para o Prof. Edelweiss, a variante “caité” é a mais procedente:
“O gentílico caité deve ser uma alcunha aplicada a esses índios tupis por seus vizinhos, ou é o nome de um antigo tubixaba, que passou à tribo. Parece composto de caí, uma casta de macacos de pernas e rosto comprido, mais eté = genuíno, verdadeiro.” (1974: 444.)
Aproveitando a citação desse trabalho do Prof. Edelweiss, é bom ler livros, artigos e outras publicações e até trabalhos inéditos como teses para que o estudo tenha mais profundidade. Leiam-se os dois verbetes nas pp. 397 e 436 do “Dicionário”: “tororõma (s. onomat.) – jorro, borbotão: ‘y-tororõma – jorro d’água, bica d’água (VLB, I, 55)” e “‘ytororõma (lit., jorro d’água) (s.) – bica d’água (VLB, I, 55)”. Segundo lição do Prof. Edelweiss, o primeiro deve ser revisto, e o segundo, corrigido, “jorro d’água” para “água rumorejante”: “Em tupi tororoma > tororõ é rumor, rumorejante e y-tororõ = rumor de água corrente, rio murmuroso [“Tororam” em Sousa 1974 [1851]: 326]. É formação onomatopaica.” (1974: 448.) O termo Parintintín que verte “roncar” se pronuncia “tororõe”, adaptação para o português (Betts 1981: 189). Ao Prof. Edelweiss cabe a razão, mas, para manter o verbete de “tororõma”, é preciso aboná-lo com fonte primária. Finalizando com a amostragem de pontos a rever e a corrigir, também é bom ler os trabalhos de Alfred Métraux, Estêvão Pinto, Florestan Fernandes, Cristina Pompa, Adone Agnolin, entre outros, para evitar uma visão estereotipada do índio Tupinambá, já que as tribos Tupinambá foram mais bem descritas e estudadas. O Pequeno vocabulário tupi-português de Lemos Barbosa traz “caraimonhanga – ceremônia de santidade; tr. fazer ceremônias de santidade” (1967 [1951]: 45), e o Curso, “caraí-monhanga2 [...] 2 – ceremônias de ‘santidade’” (1956: 356-357). No “Dicionário”, p. 188, há os verbetes “karaimonhang (v. intr.) – fazer feitiços” e “karaimonhanga (s.) – feitiço, magia, pajelança”: pelo menos há “pajelança” entre as opções para a tradução.
Os meus primeiros trabalhos foram Vitrúvio e a formação do arquiteto (1991) e Introdução ao tupi (1994). Vitrúvio e a formação do arquiteto têm vinte anos e uma longa errata (corrigenda, delenda e addenda),[33] e Introdução ao tupi, trabalho de divulgação, foi escrito com base em bibliografia recomendável, mas carente de análise linguística moderna. Revisão de um compêndio de tupi antigo ficou inédito durante quinze anos (2009), tendo sido revisto pelo Prof. Aryon Rodrigues, e agora eu faria uma alteração de fonte, mas não de conteúdo. Todo trabalho pode e deve ser melhorado, porém, tratando-se de Tupí Antigo, isso é mais do que necessário pois boa parte das fontes primárias apresenta ortografia deficiente. Por isso solicitei a Navarro que não publicasse o seu manual antes do tempo, pois se ele o fizesse, teria que refundir o trabalho posteriormente. Mas ele o publicou, e houve a necessidade de reelaborar o MMTA (2005 [1998]), ainda carente de revisão. Como se não bastasse, Navarro deu aos estudos tupis uma orientação equivocada, tratando o Tupí Antigo como uma língua viva, dispondo-se a ensiná-lo aos Potiguára e a outros remanescentes dos antigos Tupí ou Tupinambá. Nas duas primeiras edições do MMTA, vem nos “Agradecimentos”:
“Ao Prof. Dr. Aryon dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, com quem mais aprendi sobre a Língua Brasílica e que, com mão de mestre, guiou-me pelos caminhos de seu estudo. Se este livro tiver méritos, eles são todos seus.” (1999 [1998]: n.p.)
Na mesma página também se lê: “Ao Prof. Dr. Eduardo Tuffani, da Universidade de Brasília, por suas judiciosas observações e críticas, que muito me ajudaram.” Os agradecimentos não estão presentes na última edição. Não posso falar pelo Prof. Aryon Rodrigues, mas de minha parte afirmo que a apostila revisada não é exatamente o livro publicado nem poderia sê-lo pois há erros crassos que permanecem na terceira edição. Também afirmo que não recomendei a publicação do manual na ocasião porque eu esperava de Navarro um amadurecimento no que toca à questão da problemática do Tupí Antigo ou Tupinambá. Termino a redação deste texto em 11 de março de 2011, desejando que sirva para os interessados refletirem sobre a língua e o seu estudo.[34]
P.S.: Tinha eu também a intenção de fazer uma outra resenha sobre a obra Repositório da língua brasílica do advogado Elvan Loureiro (2009). Esse trabalho, no entanto, é um dicionário de Tupí Antigo, Tupi Médio e Tupi Moderno (2009: iv e vi), elaborado com base em fontes secundárias (iv). Seguidor de Navarro, Elvan Loureiro, porém, não faz uso da terceira edição do MMTA nem do “Dicionário de tupi antigo”. Trata Lemos Barbosa e Frederico Edelweiss em pé de igualdade com outros autores (iv). Em sua longa bibliografia, pp. 578-601, há casos de duplas referências bibliográficas, entre outras, para a primeira edição de Léry (588) e para Poesias de Anchieta, por Paula Martins (579), entrada em Anchieta, e 589, entrada em “Manuscrito” [!]). Também cita o livro que Navarro teria publicado pela Vozes, o que a Editora negou ter feito. São flagrantes as entradas desnecessárias e a falta de cuidado na elaboração dos verbetes: abona “jakatú” com tradução de Armando Cardoso como se fosse de Paula Martins (190). Entre outras abonações equivocadas, há a de “karamemuã” feita com base no MMTA (234). Existem casos de falsas etimologias como, entre outras, para “tororõma” (527) e “mboiguasú” (281). Apesar de ser também um dicionário de Tupi Médio, não faz verbete para marakatĩ, mas o faz para “kurusú” (256). Não há entrada para oî. Elvan Loureiro parece não ter se dado conta de que “ãua” (Barbosa 1970: 225) e “AÛÔ (Navarro 1998: 19) são a mesma coisa pois faz entradas distintas para o vocábulo (75). O dicionário que se estende por 578 pp. apresenta mais problemas do que o de Navarro já que se fez tendo por fontes obras por vezes não confiáveis: há duas entradas para “vermelho”, “piránga” e “pyránga” (432 e 468).
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[1] Professor Associado do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense: etuffani@vm.uff.br
[2] Navarro, Eduardo de Almeida. 2001. Dicionário de tupi antigo: a língua brasílica de nossas origens. Petrópolis: Vozes. A Editora afirmou nunca ter publicado tal livro. Na “Bibliografia” da tese, p. cviii, Navarro apresenta esse título como trabalho inédito! Durante muito tempo figurou no Currículo de Navarro como livro publicado (2009).
[3] ______. 2009. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global. É assim que vem atualmente no Currículo de Navarro (2011). Isto tudo é desconcertante porque, ao ser indagado sobre o livro, sou obrigado a dizer que ele ainda não saiu e que se encontra no prelo há quase uma década.
[4] Apesar de ser uma tese, e não um livro, não faço uso de “folha”, mas de “página”.
[5] Entre aspas vêm os termos com as suas grafias originais de acordo com as edições citadas.
[6] “IPANEMA corr. Y-panema, a água ruim, imprestável; o rio sem peixe, ou ruim para a pesca. São Paulo. Alt. Ipané.” (Sampaio 1987 [1901]: 251.) Por motivo de questão didática, estou empregando, com adaptações, menos uso do hífen e inserção de -y-, a ortografia adotada por Lemos Barbosa no Curso de tupi antigo (1956).
[7] Não mantive as minúsculas e o plural para os gentílicos apesar de assim terem feito Navarro e autores de outras fontes secundárias.
[8] Embora as traduções de Teodoro Sampaio deixem a desejar, o fato é que ele transcreveu, nem sempre com acerto, os originais das cartas a Pedro Poti de Diogo Pinheiro Camarão (21-10-1645) e de Diogo da Costa (17?-10-1645). O trecho “inédito” aparece no fecho da primeira (Sampaio 1906: 289). O excerto não é inédito, mas imperfeita foi a transcrição desses documentos.
[9] Se o Prof. Rodrigues é o maior linguista do Tupí Antigo, para ele Tupinambá de preferência, o Prof. Edelweiss foi o maior filólogo pois conhecia como ninguém as fontes para o estudo do Tupí Antigo. É claro que ele tinha uma análise da língua, mas não a divulgou em trabalho de forma sistematizada, ficando os seus ensinamentos dispersos em longa e válida bibliografia. Mesmo não sendo linguista, lia tudo que dizia respeito à família linguística Tupí-Guaraní, chegando por vezes às mesmas conclusões de linguistas que empregaram o método histórico-comparativo.
[10] Esta obra foi recentemente publicada. Como não tive acesso ao trabalho, mantive a referência do título inédito para não fazer uma transcrição de uma obra não consultada efetivamente.
[11] “Uerdade, ou uerdade ser. – Anhê. Aiê.” (VLB 1953: 144.) “Anhê” tilado por Navarro no mesmo verbete, justamente na subseção “O registro das variedades da língua” (pp. lxxxix-xc).
[12] Tratado descritivo do Brasil em 1587, como aparece em outras edições.
[13] Lemos Barbosa afirma: “A apócope é menos taxativa, se as duas consoantes são heterogânicas: [...] nheeng + porang = nheeng-porang ou nheẽ’-porang: falar bonito” (1956: 37-38).
[14] “CARACOU – boisson” (1975 [1614]: 180) e: “KARACOU – vin doux... faict de racines de Manioch-caue.” (1975 [1614]: 238.) Para a espécie de gado “caracu”, consultar Teodoro Sampaio (1987 [1901]: 216).
[15] “Léry grafa caramemô e, como tal, encontramos em alguns vocabulários do tupi costeiro. Mais corrente, porém, é karamemoã [karamemuã], cesto, baú, caixa arqueada etc. No guarani é de mais uso a variante karamenguá (P[línio] A[yrosa]).” (Léry 1980 [1878]: 133.) As notas tupinológicas de Ayrosa não são das mais felizes, mas aqui ele foi mais fiel ao texto original.
[16] “[...] não pode haver dúvida quanto ao seu uso, mesmo entre os tupis da Bahia. Jaboatão [1761] se refere aos maracatins, no vol. I. pp. 154-55. Aos navios, entretanto, os tupis do Centro e do Sul davam o nome de ygar-usú – canoa grande [...]” (Edelweiss 1971: 39). A obra de Jaboatão é o Novo orbe seráfico, citada pelo Prof. Edelweiss ao tratar dos aumentativos do Dicionário português e brasiliano, de 1795, no caso, para “maracatim oçú ‘navio’”. O termo é Tupí porque foi empregado pelos Potiguára de Itamaracá e pelos falantes da Língua Geral do Pará e do Maranhão, oriunda do Tupinambá do Maranhão: “E porque, nas que faziaõ sobre a agoa nesta Ilha [Itamaracá] nas suas Canoas, costumavaõ pôr na proa destas hum espigaõ de ferro, ou páo muy forte para abalroar as outras, ao qual chamavaõ Tim, no seu idioma, e neste penduravaõ alguns daqueles seus Maracás, mayores, e faziaõ mais estrondo, a esta Canoa assim armada, chamavaõ Maracá tim [...]” (Jaboatam 1858 [1761]: 154-155).
[17] [...] se refere a verbetes de derivados tupis de kopir.
[18] [...] diz respeito a outra etimologia aventada para “caipira”. Navarro não cita esse trabalho do Prof. Edelweiss em sua “Bibliografia”.
[19] O jornalista Ozias Alves Jr. é um homem culto, inteligente, interessado e dedicado, mas não é um especialista em Tupí Antigo: seguindo Navarro (1998: 546), afirma que “pirão vient de pirá (poisson) et ão” (2010: 17), escreve “ybira piranga” por ybyrapytanga “pau-brasil” cinco vezes (32-33), arrola Aimoré e Tremembé entre as principais tribos Tupí (38), diz que a carta de Diogo Pinheiro Camarão a Pedro Poti é “la seule lettre écrite par un Indien en tupi ancien” (116), afirma que o Tupí Antigo foi falado até o século XVIII de forma predominante (11 e 62), tendo desaparecido no século XIX (13, 64 e 72), mas admite que o Nheengatú surgiu no século XVIII (71), chama o Nheengatú de Língua Brasílica (11), o que cabe ao Tupí Antigo, diz que um falante do Tupí Moderno é capaz de ler um texto do Tupí Antigo (103), abre espaço para o Tupí Antigo como uma língua viva (23-26 e 78), etc. Com exceção de Batista Caetano de Almeida Nogueira, os tupinólogos do século XIX e das primeiras décadas do século XX se dedicaram ao Nheengatú, e não ao Tupí Antigo. Mesmo Teodoro Sampaio confundiu o Tupí Antigo com o Nheengatú, sendo a sua obra O tupi na geografia nacional de consulta obrigatória mais pela documentação pesquisada: “Confesso que só com grande difficuldade consegui entender o tupi em que foram escriptas as duas primeiras cartas [dos Camarões], as unicas em que logrei fazer alguma cousa na restauração e traducção do texto. As restantes estão ainda para mim indecifraveis; são verdadeiros enigmas.” (Sampaio 1906: 281.) O fato de conhecer o Tupí Moderno não facilitou na compreensão de textos do Tupí Antigo: “Nesse assumpto de traducção – e do tupy... é ser demasiado querer talvez outra coisa além do sentido... S. Jeronymo contentou-se em verter assim o livro de Judith. Os autores pios não se atêm á letra, como os philologos.” [Afrânio Peixoto.] (Primeiras 1923: 18.)
[20] Existe outra serpente que também é chamada “cobra-de-veado”.
[21] “Ociosamente, ou sem porq. – Nhê. Nhenhê. Tenhe. Tenhenhe.” (VLB 1953: 54.)
[22] “Ndaéiranhê, negatiuo, Ainda não, sempre o ranhê, alem do gerundio [...]” (Anchieta 1990 [1595]: 56).
[23] “Somente. aduerb. – Nho. Nhonhe. Nhotenhe. Nhote.” (VLB 1953: 121.)
[24] “O Imperatiuo [...] No fim do negatiuo tem, vmê [...] (Anchieta 1990 [1595]: 22-22v).
[25] “Algum, ou algua. – Amô. Amoaê.” (VLB 1952: 31.)
[26] “Morrer. – Amanô.” (VLB 1953: 42.)
[27] Para Armando Cardoso: “9. ‘Aú témo mbaé aíba mã, aé moném xe reõu, aú ã suí!’ 9. ‘Oxalá eu comesse veneno e feito fétido morresse, por comer isso!’” Na transcrição de Navarro: “A-’u temõ mba’eaíba mã a’emo nhẽ xe r-e’õû ãûa suí. – Ah, quem me dera comer veneno para que eu morresse disso.” Navarro transcreve, mas deixa de traduzir “aé moném”, para ele “a’emo nhẽ”.
[28] “As palavras que em outros autores aparecem com a terminação r [...], figuram, normalmente, em Léry, terminadas em t. Esse fenômeno, sempre facultativo no tupi [...], assume o aspecto de regra geral no Colóquio [...]” (Barbosa 1942: 308). “R final se permuta por t (pron. comum dos tamoios; entre as outras tribos, elegante mas rara): [...] a-îur = a-îut: vim [...]” (Barbosa 1956: 41).
[29] Que fique bem claro, no caso de d’Abbeville estar certo, pois “paquori”, de 1631, é abonação em Cunha (1982 [1978]: 68). Para “oiti” e “bacuri”, Teodoro Sampaio admite os étimos “Ui-ti” e “Ybá-cury” ou “ybá-curi”(1987 [1901]: 338 e 203). Gûiti na língua padrão, “ûiti” para “oiti” vem em d’Abbeville: “OUYTY – arbre” (1975 [1614]: 175). A forma “gûeti” não está de acordo com d’Abbeville, podendo ser talvez um tupinismo. A mesma fonte dá “Pakuriyba”: “PACOURY-EUUE – village... qui signifie l’arbre de Pacoury.” (1975 [1614]: 144.) No Tembé e no Guaraní Moderno, há também a forma de d’Abbeville: “Bacuri; pakuri – pakuri (G).” (Boudin 1978: 43.) No Guaraní Moderno, o termo é o mesmo, mas a árvore se trata do abieiro. Para “bacuri” e “bacurizeiro”, no Urubú-Kaapór, existem “pakuri” e “pakuri’y” (Kakumasu & Kakumasu 1988: 61 e 62). Pelo que se vê, o étimo deve ser mesmo pakuri.
[30] Os números estão aproximados para menos.
[31] Para “Apigapigtanga” e “Muriapigtanga”, confrontar Métraux (1928: 19) com Fernão Cardim (1980 [1925]: 102).
[32] “Perto destes [Potyguaras] vivia multidão de gentio que chamão Viatã, destes já não ha nenhuns, porque sendo elles amigos dos Potyguaras [...] e parentes os Portuguezes os fizerão entre si inimigos [...]” (Cardim 1980 [1925]: 102).
[33] Sujeitos a outra errata também estão os Estudos vitruvianos (1993), da tese originados, trabalho desfavorecido por editoração descuidada.
[34] Em 3 de março de 2012, o texto foi revisto com base em sugestões de um parecerista externo, sugestões nem todas por mim acatadas. Até essa data, o “Dicionário” ainda não tinha sido publicado. Acredito que a resenha tem sua razão de ser pois a obra analisada tem sido consultada e citada por estudiosos de Tupi Antigo, tornando-se uma obra de referência, apesar de suas limitações e falhas manifestas. Após o ingresso de Navarro em Etnolinguistica, o “Dicionário de tupi antigo” já não figurava em seu Currículo como livro publicado. Esclareço que consulto currículos para me atualizar, e não para acompanhar simplesmente a produtividade de outros professores.
LATINISTA-INDIANISTA
A lançar
DE MAGISTRIS COLENDIS (O RESPEITO AOS MESTRES): DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA
Eduardo Tuffani (UFF, ABRAFIL)
Boa-tarde!
Senhores e Senhoras,
Componentes da Mesa desta Sessão,
Acadêmicos desta Casa,
Demais presentes,
Agradeço as palavras a mim dirigidas por Amós Coêlho da Silva, professor e amigo dos mais prestativos e incentivadores. O Prof. Amós tem longa experiência no magistério do Latim e do Português e consolidou a sua carreira no ensino superior público e privado. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de que é Decano do Setor de Latim, trabalha em nível de Graduação, Especialização e Pós-Graduação, ensinando e estimulando os seus alunos no cultivo da Língua e da Literatura Latina, bem como da tradição clássica no mundo luso-brasileiro. Ao redigir este discurso, lia outros como modelos, optando por tratar dos que me educaram, antes da evocação do Patrono da Cadeira e dos seus ocupantes, sobretudo do meu antecessor. Cabe-me então falar dos que participaram da minha formação, quando tomo posse da Cadeira Quatro desta Confraria dedicada à Filologia: “De magistris colendis (Dos mestres que devem ser respeitados) – O respeito aos mestres.”
Aos seus alunos mais ansiosos, inclusive eu, dizia o Prof. Ricardo Mário Gonçalves, orientalista: “Tudo ao seu tempo.” Com efeito, há muito admiro esta Casa que me acolheu entre os seus membros. Se só agora pleiteei uma Cadeira foi porque julguei que era o momento de trazer aos Senhores o meu nome e o meu currículo para que fossem apreciados pelos ocupantes das Cadeiras desta Academia Brasileira de Filologia.
É agradável e também difícil recordar os mestres que contribuíram para a minha formação. Se uns são mais lembrados, se omissões são inevitáveis, penso que todos os que honraram e honram o título de “Professor” têm a sua importância na minha trajetória intelectual. Eu ainda não frequentava a Escola, e a minha mãe, Esther Tuffani, comerciante, me alfabetizava e me ensinava a desenhar: a pintura foi uma das minhas paixões. Do antigo curso Primário, como não mencionar o nome da Profa Suely Miguel? Foi o mais humano daqueles quatro anos. Fiz o exame de Admissão para ingressar no Ginásio, entrei na 1a série ginasial e, ao fim do ano de 1971, concluí a 5a série do Primeiro Grau. Não quero me alongar muito nesses onze anos de formação pré-universitária, mas não posso deixar de citar os nomes de alguns professores: Linda Tonon (Português), José Zirondi (Advogado: Português e Francês), Helena do Livramento (Francês), Mercedes Fabbre (História), entre outros docentes do então Instituto de Educação Estadual Padre Anchieta, na época, tradicional escola pública paulistana.
O gosto pelo estudo das línguas sempre me cativou. Nessa época, Português, Francês, Inglês e Italiano eram o meu contato com o universo quase inatingível dos milhares de idiomas. No Segundo Grau, procurei e encontrei dois livros fundamentais para a minha formação: Primeiros exercícios de latim de Éloi Ragon e O selvagem de José Vieira Couto de Magalhães, Patrono da Cadeira Oito da ABRAFIL. Tive de me valer da autoeducação para dar os meus primeiros passos no estudo do Latim. Graças a essa obra de Ragon, pude fazer, tempos depois, as primeiras disciplinas de Língua Latina no curso de Letras com melhor desempenho. Com as lições de Couto de Magalhães, me iniciei no aprendizado do Tupi Moderno. Esses dois livros me acompanharam durante a maior parte do Segundo Grau. Embora o estudo das línguas me fascinasse, o interesse pela História Antiga sempre esteve presente na minha vida. Tenho de admitir que o meu primeiro exame Vestibular foi para o curso de História; no entanto, após o meu ingresso nas Ciências Humanas (1979), encontrava-me com gramáticas de Hebraico, cursos de Tupi Antigo e Moderno, antologias de Português Arcaico e Clássico e outras obras do mundo das Letras. Antes de eu entrar na Universidade, o Prof. Jürn Jacob Philipson, sabendo do meu interesse por idiomas, procurou me orientar com leituras recomendadas: li Suzette Haden Elgin, Ronald Langacker e Henry Allan Gleason antes de entrar no curso de Letras. A transferência para o curso de Letras foi inevitável. O gosto pela Literatura também era muito forte em mim, sobretudo por autores clássicos gregos e latinos e canônicos brasileiros e portugueses.
No curso de Letras da Universidade de São Paulo (1981-1985), dediquei-me ao Português, ao Latim e ao Grego, ainda que não tenha podido obter a tripla habilitação pois possuía três matrículas e, logo que me formei, iniciei o curso de Pós-Graduação (1986) e fui aprovado em seleção simplificada para trabalhar como professor de Latim na Unidade de Assis da Universidade Estadual Paulista. Nos últimos anos da Graduação e nos primeiros do curso de Pós, atuei como revisor e professor de Português em estabelecimentos públicos e privados. Do curso de Letras da USP, devo citar os nomes dos professores Dulce de Faria Paiva (Língua Portuguesa), Antônio da Silveira Mendonça (Língua Latina), Maria da Glória Novak e Zélia de Almeida Cardoso (Literatura Latina), Ísis Borges Belchior da Fonseca (Língua Grega), Filomena Yoshie Hirata e José Antônio Alves Torrano (Literatura Grega). Embora não tenha sido seu aluno, Segismundo Spina, filólogo e medievalista, foi meu mestre pelos seus livros. A mesma consideração vale para José Aderaldo Castello, do Setor de Literatura Brasileira. Outro professor que não foi meu, mas até hoje é uma companhia inteligente se chama Erasmo d’Almeida Magalhães, do Setor de Línguas Indígenas. Infelizmente não pude assistir às aulas de Isaac Nicolau Salum por ter optado pela tripla habilitação. Para tentar compensar essa lacuna, ao longo da Graduação, li as obras Fontes do latim vulgar de Serafim da Silva Neto, Introdução aos estudos literários de Erich Auerbach Preparação à linguistica românica de Sílvio Edmundo Elia, A unidade da România ocidental, Gramática do latim vulgar e O problema do latim vulgar de Theodoro Henrique Maurer Júnior. Aproveito para render homenagem a Maurer Júnior, detentor de uma das mais belas carreiras nos cursos de Letras no Brasil.
O tempo em que trabalhei na Unidade de Assis da Unesp (1987-1994) coincidiu, em boa parte, com o curso de Pós-Graduação levado a termo na USP. Inicialmente sob a orientação da Profa Zélia de Almeida Cardoso e, posteriormente, do Prof. Jônatas Batista Neto, medievalista e orientalista, desenvolvi uma tese intitulada Vitrúvio e a formação do arquiteto (1991), em que busquei tratar, entre outros pontos, da fortuna da obra de Vitrúvio e da prosa métrica desse autor, aspecto muitíssimo pouco estudado no De architectura. Em Assis, foi muito proveitoso o convívio com o Prof. Ênio Aloísio Fonda, recentemente falecido, idealizador e fundador do Archivum Generale Poetarum Latinorum Brasiliensium, centro de pesquisa dedicado ao inventário e ao estudo dos poetas latinos brasileiros do século XVI ao presente. Na Unesp, colaborei com o Setor de Língua Portuguesa sempre que fui solicitado, principalmente em atividades de extensão.
O ingresso no serviço público federal se deu em Brasília com a minha aprovação em concurso público para professor de Língua Latina na Universidade de Brasília (1994). A minha permanência na UnB foi muito importante pois estive em contato com o Prof. Aryon Dall’Igna Rodrigues, um dos nossos maiores linguistas e tupinólogos. Em Brasília, enfim, foi-me possível retomar o estudo do Grego, interrompido no fim da Graduação, tendo ministrado disciplinas de Língua Grega. Em setembro de 2000, tive o meu cargo de professor redistribuído para a Universidade Federal Fluminense. De lá para cá, tornei-me parte integrante do quadro de latinistas que defende a mesma bandeira neste Estado do Rio de Janeiro. Não vou tratar aqui de minha obra, mas essa longa caminhada por Estados e Universidades me proporcionou a oportunidade de conceber e executar o trabalho de pesquisa que resultou no Repertório brasileiro de língua e literatura latina (1830-1996).
Tenho certeza de que muito já se tratou desta Cadeira Quatro e de seus ocupantes. Francisco Sotero dos Reis, Patrono da Cadeira, foi o primeiro professor de Latim do antigo Liceu Maranhense. Sotero dos Reis foi um dos mais importantes latinistas no cenário intelectual do século XIX em terras maranhenses e brasileiras. Parte de sua obra foi publicada só no século XX, e, lamentavelmente, parte se perdeu para sempre, como no caso da tradução da obra de Tibulo. Como não posso discorrer sobre todos os ocupantes, também não posso deixar de citar o nome do Prof. Ernesto Faria, Catedrático de Língua e Literatura Latina da então Universidade do Brasil na sua antiga Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras. Com quatro de seus vários livros, o Prof. Faria garantiu o seu nome na estante brasileira de Latim: Dicionário escolar latino-português, Fonética histórica do latim, Gramática superior da língua latina e Introdução à didática do latim. Se não menciono outras obras relevantes, é porque essas quatro são reelaborações de trabalhos anteriores. O Prof. Faria foi o fundador da Cadeira Quatro, e o Prof. Castelar de Carvalho, o último ocupante. Com a sua passagem para o quadro especial desta Casa, a Cadeira ficou vacante. Castelar de Carvalho é professor aposentado de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo exercido longa atividade nos cursos de Graduação e Pós-Graduação. O Prof. Castelar coordenou o grupo de pesquisa “Língua Portuguesa e Música Popular Brasileira”, além de ter atuado em atividades de extensão universitária. Atualmente, é professor do curso de Especialização em Língua Portuguesa do Liceu Literário Português. Das obras do Prof. Castelar, devem-se citar, entre outras: Para comprender Saussure, Ensaios gracilianos, Noel Rosa: língua e estilo, esta última em coautoria com o Prof. Antonio Martins de Araujo, Presidente desta Academia. O Dicionário de Machado de Assis é o coroamento de uma carreira dedicada ao ensino e à pesquisa; porém, como a capacidade humana não tem fim, continuamos à espera de outras obras do Prof. Castelar de Carvalho. O Prof. Dante Tringali, de Latim e de Teoria Literária da Unidade de Araraquara da Unesp, publicou a maior parte de seus livros depois de aposentado. Finalmente, a tese do Prof. Castelar de Carvalho, O pronome se: uma palavra oblíqua e dissimulada, é um exemplo de tese feliz, tese que não é um mero trabalho escolar ou uma prova de erudição, é uma tese muito bem sucedida. Eu a li por sugestão da Profa Lúcia Maria Pinheiro Lobato, nos meus primeiros anos de Brasília, muito ligado que era ao seu grupo de pesquisa. Sou testemunha do apreço que a Profa Lúcia Lobato passou a ter, nos seus últimos anos de vida e de trabalho, pelos filólogos brasileiros e portugueses que enriqueceram o estudo da Língua Portuguesa divulgando os seus trabalhos nos séculos XIX e XX. Para terminar, espero honrar o nome desta Casa e me fazer merecedor do voto que recebi dos Senhores, agora meus colegas, confrades de Academia. Concluindo este discurso, lembro que hoje, 5 de novembro, é o Dia Nacional da Língua Portuguesa. Muito obrigado pela atenção.
NOTE POUR LES CENT ANS DE L’ENSEIGNEMENT SUPÉRIEUR EN PHILOSOPHIE AU BRÉSIL (1908-2008)
Eduardo Tuffani
Universidade Federal Fluminense – Niterói – RJ – Brésil
Résumé: Le travail a comme point de départ un texte commémoratif du centenaire de l’établissement de l’enseignement supérieur de philosophie au Brésil. On a cherché à faire un compte-rendu de l’enseignement de la philosophie de ses premières décennies jusqu’à la consolidation des cours supérieurs, en premier, deuxième et troisième cycle (premiers doctorats). On s’est attardé sur les premières facultés, car plusieurs d’entre elles sont à peine connues, même du public cultivé. On a profité de l’occasion pour parler sur les premières universités brésiliennes, sujet qui mérite des éclaircissements.
Mots clés: philosophie, Brésil, enseignement supérieur, histoire de l’éducation
Abstract: The present work is based on a commemorative text for the centenary of the establishment of the university courses in Philosophy in Brazil. The aim was to chronicle the first decades of the teaching of Philosophy until the consolidation of the higher education courses, both in the undergraduate and gratuate levels (first doctorates). The first Philosophy schools were more thoroughly discussed, as some of them are partly unknown even to the educated public. I took the advantage to comment on the first Brazilian universities, a subject that still deserves more elucidation.
Key words: Philosophy, Brazil, higher education, history of education
En 2008, les études supérieures en philosophie au Brésil ont complété un siècle d’existence quasi sans interruption. La Faculdade Eclesiástica de São Paulo commença ses activités en mars 1908, mais pour une courte durée puisqu’elle acheva son travail en 1914. En juillet 1908, a été installée la Faculdade Livre de Filosofia e Letras de São Paulo, appelée ensuite Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento, plus tard incorporée à la Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUCSP. Depuis 2002, une nouvelle Faculdade de São Bento offre une licence-enseignant (licenciatura) en philosophie. L’Academia de Altos Estudos, plus tard Faculdade de Filosofia e Letras, fut créée en 1916 par l’Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Elle offrait, parmi d’autres cours, celui de philosophie et lettres, mais elle aussi fut de courte durée, terminant ses activités en 1921. La Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro fonctionna de 1924 à 1937 dans la ville alors capitale du pays. En 1931, fut installée la Faculdade Paulista de Letras e Filosofia, qui avait aussi un cours de philosophie, mais ne survécut pas, jusqu’à ce que l’on sache, bien au-delà des agitations de 1932. L’institut “Sedes Sapientiae” démarra en 1933, et offrait, parmi d’autres, un cours de philosophie. L’institut a lui aussi été incorporé à la PUCSP. En 1934, fut créée la Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL en même temps que l’Universidade de São Paulo-USP. La même année, la FFCL de l’USP commença à proposer son cours de philosophie. En 1935, fut fondée l’Universidade do Distrito Federal-UDF, mais le cours de philosophie, de l’Escola de Filosofia e Letras, débuta l’année suivante. La Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras, unité de l’Universidade do Brasil-UB, actuelle Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, ne fut instituée qu’en 1939 avec l’extinction de l’UDF et le transfert de ses cours à l’UB. A cette occasion, les cours supérieurs furent standardisés et restèrent tels quels pendant vingt ans. Vers 1940, les cours de philosophie au Brésil étaient déjà consolidés, bien qu’ils ne soient pas nombreux. Selon cette brève introduction, le premier cours créé et installé fut le diocésain de la Faculdade Eclesiástica, qui devint ensuite faculté pontificale. Le cours de philosophie de la PUCSP est le plus ancien en activité, vu qu’il est originaire de l’ancienne Faculdade Livre bénédictine, qui a même été agrégée à l’Université de Louvain.
Sous l’épiscopat de D. Duarte Leopoldo et Silva, fut créée la Faculdade Eclesiástica de São Paulo, œuvre de Mgr Maximiano da Silva Leite. La Faculdade Eclesiástica passa à fonctionner de façon régulière le 1er mars 1908 (Mendonça (1952), p. 13). La faculté offrait un cours de philosophie d’une durée de trois ans et pouvait conférer le titre de Docteur en philosophie (“Faculdade” (abr. 1908), p. 198). Après la conversion du Seminário Maior de São Paulo en Seminário Provincial, la faculté annexe au séminaire devint une faculté pontificale par le décret du Pape Pie X (apud Mendonça (1952), p. 14), installée pontificalement le 14 juin 19081. A cette occasion, composaient le collège doctoral: le chancelier D. Duarte Leopoldo e Silva, le vice-chancelier D. Miguel Kruse, le recteur Mgr Maximiano da Silva Leite, le secrétaire père João Batista de Siqueira et le lecteur titulaire père Sebastião Leme da Silveira Cintra.
D’orientation catholique, furent professeurs de la faculté les pères docteurs João Batista de Siqueira (histoire de la philosophie et métaphysique spéciale), Sebastião Leme da Silveira Cintra (métaphysique générale et logique), Joaquim Domingues de Oliveira (littérature portugaise), José Tupinambá da Frota (philosophie morale et sociologie) et le lettré Álvaro Guerra (littérature) (“Seminario” (jan. /fev. 1909), p. 139, Mendonça (1952), p. 25). Comme l’on ne dispose ni d’un programme du cours de philosophie, ni du tableau des professeurs, il est difficile de faire une exposition plus détaillée. Il est certain qu’ont aussi participé de la Faculdade Eclesiástica monseigneurs Francisco de Paula Rodrigues et Charles Sentroul ainsi que D. Lourenço Lumini, tous trois liés à la Faculdade Livre de Filosofia do Mosteiro de São Bento (Mendonça (1952), p. 13). Le 26 décembre 1910, se réalisa la cérémonie de remise de diplômes aux premiers licenciés de la Faculdade Eclesiástica (“Seminario” (jan. 1910), p. 100), réalisant ainsi le désir de D. José de Camargo Barros, antécesseur de D. Duarte Leopoldo et Silva et idéalisateur de la reforme du Seminário Maior de São Paulo. La faculté acheva ses activités en 1914 car l’archidiocèse priva la faculté de son principal professeur, le père Sebastião Leme da Silveira Cintra (Mendonça (1952), p. 26), après quoi s’éloignèrent Mgr Maximiano da Silva Leite et les pères João Gualberto do Amaral et João Batista de Siqueira. La Faculdade Eclesiástica de São Paulo est citée comme “Pontifícia Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo” dans une de ses principales sources (id., ibid.). Malheureusement il n’a pas été possible de consulter les Statuta Facultatis Ecclesiasticae Sancti Pauli in Brasilia apud Seminarium Provinciale (apud Lacombe (1974), p. 152).
La Faculdade Livre de Filosofia e Letras de São Paulo fut une initiative de D. Miguel Kruse, abbé du Mosteiro de São Bento. La Faculdade Livre bénédictine commença le 15 juillet 1908 (“Relatorio” (1908), p. 14), quand Mgr Charles Sentroul, issu de l’Université de Louvain, donna sa première classe du cours de philosophie. Faisaient partie du conseil des études universitaires le président D. Miguel Kruse, Mgr Francisco de Paula Rodrigues, le conseiller Manuel A. Duarte de Azevedo, le baron Brasílio Machado et les docteurs Adolfo Augusto Pinto, Reinaldo Porchat, José Bonifácio de Oliveira Coutinho et José Brant de Carvalho. Plus tard, le docteur Manuel de Alvarenga intégra le conseil en la qualité de secrétaire. Le cours se déroulait le soir avec des classes en français, à raison de cinq classes par semaine (id., ibid., p. 31). Dans la Faculdade Eclesiástica, qui suivait le modèle de l’Université Grégorienne, l’enseignement se faisait en latin (Mendonça (1952), p. 25). Le programme du cours bénédictin était le suivant: 1ère année (critériologie et psychologie), 2e année (cosmologie, théodicée et métaphysique), 3e année (philosophie morale et histoire de la philosophie) (“Relatorio” (1908), p. 33). Comme il s’agissait d’un cours de philosophie et lettres, on doit comprendre qu’en tant que “lettres” on désignait “la littérature en général et les sciences historiques et sociales” (“Estatutos” (1909), p. 19). Quelques temps après, la Faculdade Livre conta avec des lecteurs d’histoire et de littérature.
Dans l’Anuário de 1911, la Faculdade Livre présenta son corps enseignant constitué alors par: Mgr docteur Charles Sentroul (philosophie et remplaçant pour littérature française), docteur Afonso d’Escragnolle Taunay (histoire) et D. Miguel Kruse (littérature). Plus tard enseignèrent la littérature le chanoine Manfredo Leite et littérature portugaise Mgr docteur Silveira Barradas. Maintenue la durée de trois ans pour l’étude de la philosophie, l’histoire et la littérature étaient étudiée “chaque matière, durant une seule des trois années du cours” (“Extracto” (1911), p. 12), accordant le titre de Licencié en philosophie et lettres de la Faculdade Livre de Filosofia e Letras de São Paulo (id., ibid., p. 13). Pour obtenir le titre de Docteur, l’intéressé devait présenter une “dissertation imprimée et publiée après l’approbation du ‘conseil des études universitaires’, au moins un mois avant la date fixée pour la défense publique” (id., ibid., pp. 13-14). Une fois agrégée à l’Université de Louvain, les élèves ayant obtenus leur titre de la Faculdade Livre pouvaient obtenir les titres de l’Institut supérieur de philosophie de Louvain (id., ibid., p. 14). En 1911, la première classe conclut le cours de la Faculdade Livre de Filosofia, la remise de diplômes de Licencié en philosophie et lettres s’effectua le 11 avril 1912. Les premiers diplômés furent les messieurs Alexandre Correia, Carlos de Moraes Andrade, Vicente Rao, Antônio Define, Onofre Ovídio de Albuquerque, Raul Correia da Silva et José Bueno de Oliveira Azevedo (“Relatorio” (1912), pp. 19-20). En 1914, le conseil de la Faculdade Livre concéda le titre de Docteur en philosophie et lettres au comte Carlos de Laet2. La Faculdade Livre interrompit ses activités en 1917 en raison de la Première Guerre mondiale, la même année embarqua vers l’Europe Mgr Charles Sentroul. Les activités reprirent en 1922 avec un nouveau professeur de philosophie, le docteur Leonardo van Acker.
Avant la fondation de l’Universidade de São Paulo-USP, la première ayant une faculté de philosophie, sciences et lettres installée3, furent fondées l’Universidade de Manaus (1909), la première Universidade de São Paulo, d’initiative privée (1911), l’Universidade do Paraná (1912), l’Universidade do Rio de Janeiro (1920) et l’Universidade de Minas Gerais (1927). L’USP a été créée le 25 janvier 1934, et l’Universidade de Porto Alegre le 28 novembre de la même année. Des universités antérieures à l’USP, seules les deux premières ouvrirent de l’espace pour les humanités, car les autres réunissaient les facultés traditionnelles de droit, médicine et ingénierie. Comme la législation pour l’enseignement supérieur était encore à implanter, il existait seulement pour les cours traditionnels, il revenait à l’école secondaire la concession du titre formel, celui de Licencié en sciences et lettres. Pour cette raison, les premières universités n’ont pas investi, par exemple, en philosophie, lettres et sciences humaines. Le 17 janvier 1909, a été fondée l’Escola Universitária Livre de Manaus (Passos (jul. /dez. 1914), p. 71), qui a été établie le 15 mars 1910 (id., ibid., p. 73). A partir du 13 juillet 1913, elle changea de nom pour Universidade de Manaus (id., ibid., p. 86). Parmi les unités de l’université, il y avait une Faculdade de Ciências e Letras, qui était une école secondaire ayant pour modèle le Ginásio Nacional (id., ibid., p. 71), comme était nommé alors l’actuel Colégio Pedro II. Peu après, la Faculdade de Ciências e Letras n’offrit plus le cours secondaire, s’occupant ensuite d’un cours préparatoire (id., ibid., pp. 87-88). L’Universidade de Manaus était liée au cycle du caoutchouc, et termina son existence en 1926, quand prit sa place, le 1er mai l’Associação Vulgarizadora do Ensino, qui reprit à sa charge quelques unités restantes (“Associação” (1927), p. 100). La première Universidade de São Paulo fut créée le 19 novembre 1911 (Universidade (1917), p. 5) et inaugurée le 23 mars 1912 (id., ibid.). Bien que sa principale source date de 1917, elle a dû se maintenir en fonctionnement jusqu’en 19194. En ce qui a trait aux humanités, l’université possédait trois unités : l’Escola Secundária, l’Escola de Ciências e Letras et l’Escola Superior de Filosofia, História e Literatura, “école de culture transcendante” (Universidade (1917), p. 7). De niveau supérieur, l’Escola de Ciências e Letras est restée sans installation faute de public. L’Escola Secundária fut fréquentée (id., ibid., p. 8), mais le nombre des inscriptions se réduisit avec le passage du temps (id., ibid., p. 113). L’Escola Superior pour “culture transcendante” n’était pas une école régulière, elle n’a même pas fonctionné, car elle fut substituée le 7 décembre 1914 par l’Universidade Popular (id., ibid., p. 115), où étaient données des leçons publiques et hebdomadaires (id., ibid., p. 89), une véritable école d’extension. Le fait d’avoir été une institution privée et la concurrence des facultés publiques a dû avoir contribué pour que la première USP termine ses activités5. On s’est occupé ici des deux premières universités brésiliennes pour avoir essayé de conformer à la législation en vigueur leurs cours liés aux humanités et pour être encore méconnues d’une partie du milieu académique.
Entretenue par l’Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB, l’Academia de Altos Estudos a été fondée le 12 octobre 1915 et installée le 25 mars 1916. Parmi les cours offerts par l’académie, il y en avait un de philosophie et lettres d’une durée de trois ans. Le premier cours de philosophie de Rio de Janeiro n’a pas formé de groupe pendant la première phase de l’Academia6, ensuite appelée Faculdade de Filosofia e Letras. Continuation de l’Academia, la Faculdade de Filosofia e Letras a été inaugurée le 17 mars 1919, maintenant ses cours en activité jusqu’en 1921. Le programme du cours de philosophie et lettres était le suivant: 1ère année (histoire de la langue portugaise, dialectologie, stylistique; psychologie; histoire de la littérature ancienne, grecque et latine; histoire de la littérature moderne, néolatine et anglo-germanique), 2e année (philologie comparée des langues romanes; histoire des religions; esthétique et histoire de l’art; histoire de la littérature portugaise et de la brésilienne), 3e année (philosophie générale et histoire de la philosophie; économie politique; philosophie et histoire du droit; sociologie) (Regulamento (1919), pp. 6-7). Des cours de la Faculdade, il n’y eu de conclusion que des classes de philosophie et lettres et sciences politiques et sociales (Listas (1919-1921)). Au contraire des deux premiers cours supérieures de philosophie, dans celui offert par la faculté de l’IHGB, la philosophie occupait un espace plus réduit, des cinq matières de lettres, toutefois, seulement trois furent dispensés (id., ibid., f. 4). Le titre de Licencié en philosophie et lettres était équiparé à celui de sciences et lettres concédé par les collèges officiels (Regulamento (1919), p. 24). Quand au doctorat, la faculté le règlementait:
“Le degré et titre de Docteur seront conférés au licencié ou au professeur qui présente thèse originale, imprimée, défendue devant la commission élue par la Congrégation, et par elle approuvée [...] Par deux tiers des votes des professeurs en exercice pourra la Congrégation conférer le degré et le titre de Docteur au professeur qui aura rendu d’honorables services à la Faculté.” (Id., ibid., p. 4.)
En 1924, la faculté, dont les cours ne fonctionnaient déjà plus, concéda le titre de Docteur en philosophie à Afonso Celso de Assis Figueiredo, président de l’Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Diploma (1924)). Le corps enseignant du cours de philosophie, sans prendre en compte les disciplines de lettres, était constitué par les professeurs en titre: Juliano Moreira (psychologie), Afrânio de Melo Franco (histoire des religions), Luís Betim Paes Leme (esthétique et histoire de l’art), Laudelino Freire (philosophie générale et histoire de la philosophie), Afonso Celso de Assis Figueiredo (économie politique), Levi Carneiro (philosophie et histoire du droit) et Júlio Afrânio Peixoto (sociologie) (“Faculdade” (1919/1920), p. 869). Plus tard, José Maria Moreira Guimarães a assumé l’histoire des religions, et A. de B. Ramalho Ortigão et Jônatas Serrano furent professeurs suppléants respectivement d’économie politique et de philosophie et histoire du droit (“Faculdade” (1921), p. 729).
D’après Modesto de Abreu, la Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro fonctionna de 1924 “jusqu’à environ 1937” (apud Paim (1983), p. 94). Des anciennes facultés de philosophie, elle est actuellement la moins connue. Parmi les fondateurs de cette faculté, sont cités les docteurs Nicanor Nascimento, Washington Garcia et Inácio Raposo et les généraux José Maria Moreira Guimarães et Samuel de Oliveira (id., ibid., p. 95). Le cours avait une durée de trois ans et offrait les matières suivantes: anthropologie, métaphysique, histoire de la civilisation, archéologie, histoire des religions, moral comparée, esthétique, sociologie, histoire de la philosophie, philosophie du droit, histoire de l’art et théorie de la connaissance (id., ibid.). Au départ, la faculté “fonctionnait Praça 15 de Novembro, dans les dépendances de l’Academia do Comércio (Académie du commerce), dont l’immeuble appartenait à la Curie métropolitaine” (apud. id., ibid.). La première conclusion de cours eu lieu en 1926, et la faculté “conférait le diplôme doctoral après défense et approbation d’une thèse sur chacune des matières du cours” (apud. id., ibid.). Aussi selon Modesto de Abreu, il y eu des doctorats, dont le sien et celui de ses collègues, car il est devenu professeur de cette même Faculdade de Filosofia (apud. id., ibid.). Il n’y a aucun doute que la faculté a existé, a diplômé des classes, et a fait partie de la vie intellectuelle de Rio de Janeiro. La Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro mérite, cependant, une étude plus approfondie, surtout en ce qui a trait au corps professoral et aux doctorats conférés. Ce travail doit être difficile, tout comme l’a été la recherche pour obtenir quelque information au sujet de la Faculdade Paulista de Letras e Filosofia (Tuffani (2007)).
En 1922, la Faculdade Livre de Filosofia e Letras de São Paulo reprit ses activités en ayant comme professeur de philosophie le docteur Leonardo van Acker. En 1924, Leonardo van Acker était professeur en titre de métaphysique, et Alexandre Correia, professeur en titre de moral, licencié par la faculté et docteur en philosophie par l’Université de Louvain. La Faculdade Livre commença en 1925 le premier cours supérieur de lettres stricto sensu brésilien, un cours de philologie classique (latin et grec) (“Relatorio” (1925), p. 20). Alexandre Correia fut le premier professeur de ce cours de lettres, et Leonardo van Acker, le second, Docteur en philosophie et aussi en lettres. En 1931, celle qui portait alors le nom de Faculdade de Filosofia e Letras de São Bento avait le cursus suivant pour son cours de philosophie et lettres: 1ère année (introduction à la philosophie, cosmologie, psychologie, philosophie des belles-lettres, littérature luso-brésilienne), 2e année (psychologie, métaphysique, histoire de la philosophie), 3e année (critique, questions spéciales, moral générale, philosophie du droit) (“Regulamento” (mar. 1931), p. 99). Le titre de Licencié était conféré aux gradés en philosophie et lettres, et un document attestant la conclusion du cours aux élèves ayant suivi une formation en philologie classique, maintenant aux élèves concernés le titre de Docteur en philosophie et lettres, conformément à la réglementation exposée antérieurement (id., ibid., p. 100).
Le ministre Francisco Campos entreprit la reforme de l’enseignement universitaire par le Décret nº 19.851, du 11 avril 1931, en instituant le Statut des universités brésiliennes (Estatuto das Universidades Brasileiras) (apud Lobo (1980), p. 42). Avant cela, il n’y avait pas de législation plénière pour l’enseignement supérieur, d’où l’attestation pour les élèves ayant suivi une formation en philologie classique de la Faculdade de São Bento. Avec le Décret nº 19.852, du 11 avril 1931, le gouvernement fédéral créa la Faculdade de Educação, Ciências e Letras, qu’il devait installer par la suite. La première faculté installée après l’Estatuto fut la Faculdade Paulista de Letras e Filosofia le 1er juin 19317. La Faculdade Paulista est souvent citée de façon erronée comme “Faculdade de Letras e Filosofia de São Paulo” (Isoldi (1932), page de faux-titre, Lacombe (1974), p. 155). Le 27 novembre 1930, des intellectuels de l’état de São Paulo fondèrent la Sociedade de Filosofia e Letras de São Paulo (Campos (1954), pp. 421-422), entité qui est à l’origine de la Faculdade Paulista. Le conseil supérieur de la faculté était composé par: le directeur José de Alcântara Machado, le vice-directeur Ricardo Severo, le secrétaire général Antonio Piccarolo, le consultant juridique Spencer Vampré et le trésorier Artur Mota (Tuffani (2007), f. 7). La Faculdade Paulista offrait des cours de lettres et de philosophie, mais celui de lettres était un cours de lettres et d’histoire, et pas de lettres stricto sensu (id., ibid., f. 9). Il était prévu d’accorder des titres de Docteur selon les spécialités ou l’ensemble offert par la faculté (id., ibid., f. 8). Faisait partie du cours de philosophie les matières obligatoires de biologie (professeur Ulisses Paranhos), psychologie (professeur Manuel Bergström Lourenço Filho), logique, esthétique, sociologie, histoire de l’éducation, histoire de la philosophie et histoire des religions (id., ibid.). Quelques professeurs n’avaient pas de chaire spécifiée à l’occasion de l’ouverture des cours de l’éphémère faculté. La Faculdade Paulista, à ce qu’il parait, n’a pas survécu bien au-delà de l’année du Movimento Constitucionalista (Mouvement constitutionnaliste) de 1932 (id., ibid., f. 5).
Le 1er mars 1933, commencèrent les activités de l’Instituto Superior de Pedagogia, Ciências e Letras “Sedes Sapientiae”, plus tard incorporé à la Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sous le nom de Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Sedes Sapientiae”. Fondée par les chanoinesses de Santo Agostinho de Nossa Senhora de Jupille, l’Instituto “Sedes Sapientiae” était composé par les unités suivantes: Faculdade de Letras, Faculdade de Ciências et Instituto Superior de Educação (“Instituto” (nov. 1935), p. 295). La Faculdade de Letras conférait des diplômes de philosophie, lettres (lettres classiques et vernaculaires), histoire et géographie et langues (lettres étrangères) (id., ibid.). Les cours avaient une durée de trois ans, et il était prévu un cours de Doctorat:
“La candidate [le corps estudiantin était féminin] au diplôme de Docteur, ayant obtenu la licence en n’importe quelle des séries, devra se préparer par les cours spécialisés sous la chancelle d’un maître de conférences, pour défendre une thèse.” (Id., ibid.)
Le cours de philosophie était composé par les chaires de philosophie, histoire de la philosophie et sociologie générale (id., ibid.). Du cours de philosophie, étaient lecteurs de l’institut les docteurs José Danti (philosophie morale), Alexandre Correia (philosophie et histoire de la philosophie) et Leonardo van Acker (philosophie et philosophie de l’éducation) (id., ibid., p. 298, Campos (1941), p. 328).
Fondée le 25 janvier 1934, sous le gouvernement d’Armando de Sales Oliveira, l’Universidade de São Paulo a été installée le 11 mars de la même année. Dans la Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL, faisaient partie de la section de philosophie les chaires de philosophie, histoire de la philosophie, philosophie des sciences et psychologie (Anuario (1934/1935), p. 3). Le programme du cours de philosophie était le suivant: 1ère année (philosophie générale et psychologie, sociologie), 2e année (philosophie générale et histoire de la philosophie, philosophie morale et social, sociologie), 3e année (philosophie générale et histoire de la philosophie, logique et philosophie des sciences, sociologie) (id., ibid., p. 215). Disposant d’une mission de professeurs étrangers, la FFCL de l’USP contracta pour le cours de philosophie Étienne Borne et Jean Maugüé, brillants professeurs des lycées parisiens. Étienne Borne prit en charge les chaires de philosophie et psychologie, mais resta très peu de temps au devant du cours de philosophie, quittant la FFCL en 1935. Jean Maugüé fut responsable des mêmes chaires et resta à la FFCL de 1935 à 1944, laissant une empreinte profonde chez les élèves qu’il a formés. Il est impossible de résumer ici “Certidão de nascimento”, chapitre du livre Um departamento francês de ultramar (Arantes (1994), pp. 61-87). Dans cette œuvre, il y a un long compte-rendu de l’activité de Jean Maugüé dans le troisième cours laïc de philosophie stricto sensu créé au Brésil. Cependant, on ne peut s’empêcher de mentionner quelques lignes qui résument les directives de l’enseignement de Jean Maugüé: “La philosophie ne s’enseigne pas, au plus on enseigne à philosopher” (apud id., ibid., p. 63); “L’enseignement de la philosophie devra être principalement historique” (apud id., ibid., pp. 71-72). En liant les deux citations, on arrive à la leçon suivante:
“S’il est vrai que l’on ne peut jamais enseigner la philosophie sinon qu’historiquement, comme le voulait Kant, la lecture des classiques en vient donc d’être l’unique moyen d’apprendre à philosopher.” (Apud id., ibid., p. 72.)
La première conclusion de cours eut lieu en 1936, la remise de diplômes aux premiers étudiants ayant suivi la formation de la FFCL s’étant réalisée le 25 janvier 1937 (“Noticiario” (1936), p. 184). Parmi les dix gradués en philosophie, se trouvaient João Cruz Costa et Lívio Teixeira (id., ibid., p. 190), qui devinrent à la suite professeurs adjoints du cours de philosophie.
L’Universidade do Distrito Federal-UDF fut conçue par Anísio Teixeira quand directeur d’Instrução Pública do Distrito Federal, à Rio de Janeiro, qui était alors la capitale fédérale. Parmi ses unités, il y avait l’Escola de Filosofia e Letras, dont la section de philosophie offrait les matières de philosophie, philosophie des sciences, esthétique, histoire de la philosophie, psychologie et histoire générale de la civilisation (Prefeitura (1935), pp. 18-19). L’UDF se démarquait car elle offrait un espace pour les cours non accueillis dans les universités que se limitaient à réunir les cours traditionnels, l’unique exception étant l’Universidade de São Paulo. L’UDF était composée par les unités suivantes: Instituto de Educação, Escola de Ciências, Escola de Economia e Direito, Escola de Filosofia e Letras et Instituto de Artes (id., ibid., p. 4). Fondée le 4 avril 1935, l’UDF fut inaugurée le 31 juillet suivant. Pour l’année 1935, il n’y avait pas de prévision d’ouverture du cours de philosophie, se qui n’arriva qu’en 1936. Comptant aussi avec une mission étrangère, l’UDF eut comme professeurs Émile Bréhier, de l’Université de Paris, pour histoire de la philosophie (Bréhier (1937), p. 5) et Étienne Souriou, de l’Université de Lyon, pour psychologie et philosophie (id., ibid., p. 93). L’Universidade do Distrito Federal présentait le projet le plus intéressant quand on se réfère aux humanités, en évitant, par exemple, les qualifications doubles ou triples. Dans la section de philologie, comme innovation, on offrait la matière de linguistique (Prefeitura (1935), p. 19). Initiative de l’alors Distrito Federal, l’UDF incommoda le gouvernement central avec son Universidade do Rio de Janeiro, qui possédait les plus anciennes écoles traditionnelles. Quand à la fin de l’UDF, elle sera vue lorsque nous nous référerons à la création de la Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras.
Avec le Décret-loi nº 452, du 5 juillet 1937, l’Universidade do Rio de Janeiro subit une nouvelle réorganisation, prenant le nom d’Universidade do Brasil-UB. C’est à cette époque que fut créée la Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras-FNF ou FNFi. Elle ne commença réellement à exister que lorsque le gouvernement fédéral fit disparaître l’Universidade do Distrito Federal par le biais du Décret-loi nº 1.063, du 20 janvier 1939, et transféra à l’UB les unités d’enseignement de l’UDF. La Faculdade Nacional de Filosofia fut organisée par le Décret nº 1.190, du 4 avril 1939, et installée le 21 juillet 19398. Pour la seconde mission étrangère, fut engagé le penseur catholique français René Lucien Poirier. Aux alentours de 1941, le corps enseignant des deux chaires de philosophie était composée par: Maurílio Teixeira Leite Penido, professeur embauché, professeurs adjoints Celso Lemos et Álvaro Borges Vieira Pinto (philosophie), Reinhold José Augusto Berge, maître de conférences intérimaire, et René Lucien Poirier, professeur étranger sous contrat (histoire de la philosophie)9. Le programme du cours de philosophie, selon le Décret nº 1.190, était tel: 1ère année (introduction à la philosophie, psychologie, logique, histoire de la philosophie), 2e année (psychologie, sociologie, histoire de la philosophie), 3e année (psychologie, étique, esthétique, philosophie générale) (Fávero (1989), pp. 80-81). Le Décret nº 1.190 donna le départ à la standardisation des cours supérieures lors d’une ingérence fort malheureuse de la part du gouvernement fédéral. Si le cours de philosophie ne fut trop atteint, ceux de lettres et d’histoire eurent de vrais déformations, comme le cours de lettres néolatines, qui débouchait sur un diplôme en français, italien, espagnol, latin et portugais10.
Le 12 novembre 1940, le Conseil national d’éducation (Conselho Nacional de Educação) reconnu les cours de philosophie, sciences sociales, lettres classiques et pédagogie de la Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento, conformes au Décret nº 1.190 (“O reconhecimento ” (nov. 1940), p. vi). A cette occasion, faisaient partie du corps enseignant de la seconde faculté brésilienne de philosophie les professeurs docteurs Alexandre Correia (histoire de la philosophie et éthique) et Leonardo van Acker (métaphysique, philosophie de l’éducation et logique) (id., ibid., p. iv). Une équivoque s’est glissée lors de la rédaction: faisant référence à la reconnaissance de la Faculdade de São Bento, on affirme que: “Au début, fonctionnaient seulement les cours de philosophie et lettres classiques.” (Id., ibid., p. v.) Comme il a été relaté, le cours de philosophie date de 1908, et celui de philologie classique ne fut mis en place qu’en 1925.
Avec les standardisations imposées par le Décret nº 1.190 et la législation complémentaire, les cours maintinrent la durée de trois ans, tout en réservant une quatrième année à la formation pédagogique, comme quoi on distinguait le licencié (bacharel) du licencié-enseignant (licenciado) [Ndt] (Anuário (1939/1949), pp. 15-16). Vers 1940, étaient professeurs du cours de philosophie de l’Universidade de São Paulo, Jean Maugüé, João Cruz Costa et Lívio Teixeira. Le 9 décembre 1941, le conseil universitaire approuva le régiment pour le cours de Doctorat de la Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (id., ibid., p. 399). João Cruz Costa obtint son doctorat le 11 novembre 1942 (id., ibid., p. 401), et Lívio Teixeira, le 14 septembre 1944 (id., ibid., p. 403). Ces deux premières thèses furent publiées plus tard par la FFCL de l’USP11. A partir de 1942, avec la législation complémentaire, les cours supérieures étaient standardisés, et d’autres FFCLs commencèrent à être fondées, diffusant l’enseignement de la philosophie au Brésil. La phase de l’ancienne licence en sciences et lettres était révolue. On a cherché ici à parler des premiers cours supérieurs de philosophie fondés et installés au Brésil. Pour cette raison, les cours étant consolidés, y compris celui de Doctorat, le texte ne va pas plus loin dans le temps.
Ndt : Le Brésil fait une différence entre la formation et le diplôme qui débouche sur le bacharelado pour le futur professionnel non-enseigant et sur la licenciatura pour le futur enseignant. L’étudiant qui termine le cycle complet obtient le titre de bacharel. Une année d’études et des stages sont nécessaires pour obtenir la licenciatura, et là seulement permet d’être enseigant.
Traduction de Catherine Michèle Marthe Caffé Farias
Notes
(1) “Faculdade” (jun. 1908), p. 235. Chez Mendonça (1952), p. 13, il y a un lapsus qui date l’événement au 14 juillet.
(2) “Le Conseil des Etudes Universitaires a résolu, lors de sa dernière réunion, conférer le titre de Docteur honoris causa en philosophie et lettres, à l’illustre journaliste brésilien, Monsieur le Comte de Laet, cherchant ainsi à récompenser les efforts employés par cet érudit homme de lettres, en défense des sains principes de la morale, de la justice et d’un profond bon sens.” (“Collação” (1914), p. 11.)
(3) Le ministre Francisco Campos, de l’Educação e Saúde Pública, réorganisa l’Universidade do Rio de Janeiro par le Décret nº 19.852, du 11 avril 1931, fondant une faculté d’enseignement, sciences et lettres qui n’a jamais été instituée. La FFCL de l’USP fut la première faculté officielle de philosophie.
(4) Selon des recherches en cours, liées à Tuffani (2007).
(5) La mise en place de la première USP a probablement poussé le gouvernement d’état à inaugurer sa propre école de médicine en 1913.
(6) Lors de la première phase de l’Academia, les licenciés en sciences politiques et sociales obtinrent leur diplôme (“Faculdade” (abr./jun. 1990), p. 284). Consultés antérieurement, il n’a pas été possible de revoir maintenant les Estatutos da Academia de Altos Estudos (1917, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 17 pp.). Le programme du cours de philosophie et lettres se trouve aux pp. 4-5 de l’œuvre non-localisée. Le Regimento interno da Universidade de São Paulo (1912, São Paulo, 85 pp.) n’a pas encore été consulté car l’unique exemplaire connu n’a pas été retrouvé.
(7) Tuffani (2007), f. 5. On cherche à noter les dates quand il s’agit de facultés ou d’universités encore peu connues bien qu’il y ait plusieurs sources secondaires qui les fournissent.
(8) Lecture obligatoire sur l’histoire de la FNFi, les Depoimentos, coordonnés par M. de L. de A. Fávero (1992), Rio de Janeiro: UFRJ, FUJB, 542 pp., Série Faculdade Nacional de Filosofia, 5.
(9) Reinhold José Augusto Berge est cité comme “maitre de conférences italien” dans Fávero (1989), p. 37, probablement un lapsus pour “maitre de conférences intérimaire”. Connu comme Frei Damião Berge, ce professeur n’était pas italien, mais originaire de Rio de Janeiro, il n’avait pas encore défendu sa thèse, ce qui eu lieu en 1948 pour la chaire de Langue et littérature grecque, travail intimement lié à la philosophie: D. Berge (1969), O logos heraclítico: introdução ao estudo dos Fragmentos, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 452 pp.
(10) Un acte ministériel a étendu la qualification en latin à tous les licenciés en lettres (apud Faria (1959), p. 288).
(11) J. C. Costa (1942), Ensaio sôbre a vida e a obra do filósofo Francisco Sanchez, São Paulo: Universidade de São Paulo, 119 pp., Boletins da Faculdade de Filosofia, Ciências et Letras, 29, Filosofia, 1.
L. Teixeira (1951), “Nicolau de Cusa: estudo dos quadros históricos en que se desenvolveu seu pensamento e análise dos livros I et II do ‘De docta ignorantia’”, Revista de História, São Paulo, Sociedade de Estudos Históricos, 2 (5): 19-41; 2 (6): 283-305; 3 (7): 71-84.
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Os estudos latinos no Brasil
EDUARDO TUFFANI
Universidade Federal Fluminense
RESUMO: Trata-se da importância do ensino do Latim no período colonial, enfatizando o papel da Companhia de Jesus. É discutido o longo processo da reorganização do ensino secundário e da implantação dos estudos superiores. Apresenta-se a época que vai do fim do secundário de tradição literária à fundação dos primeiros cursos de Letras e Filosofia. Faz-se um balanço dos estudos latinos de 1940 a 1970, período de sua maior vitalidade no Brasil, tratando da Lei Capanema de 1942 e da antiga Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. É fechado o panorama com o relato das atividades até 1996, considerando o quadro por ocasião da nova LDB.
PALAVRAS-CHAVE: Latim; Brasil; ensino; história da educação.
Ainda que não seja o propósito deste trabalho historiar os estudos latinos no Brasil1, não se pode deixar de fazer um relato, mesmo breve, recuando até o século XVI. Com efeito, não se deve tratar o estudo do Latim no Brasil do mesmo modo que o do Direito e o da Medicina, cursos superiores implantados entre nós nas primeiras décadas do século XIX, ao passo que o Latim, desde o primeiro século da Colônia, era ensinado nas escolas secundárias. A instrução no Brasil dos primeiros séculos confundia-se com a presença da Companhia de Jesus, visto que, de 1549 a 1759, o ensino colonial esteve praticamente a cargo da Ordem. Ao contrário dos franciscanos, carmelitas e beneditinos, todos mais reclusos e ascéticos, os jesuítas faziam da educação um instrumento para a sua bandeira, o que em parte servia à expansão portuguesa (Azevedo, 1971, p. 511)2.Uma vez estabelecidos no país, os padres da Companhia passaram a fundar as escolas de ler e escrever, escolas elementares, e os colégios, escolas médias, em que se destacava o ensino do Latim. No momento da expulsão da Ordem em 1759 pelo Marquês de Pombal, havia na Colônia dezessete colégios mantidos pelos jesuítas, cinco dos quais eram seminários maiores de formação religiosa. Os colégios mais importantes eram o de Todos os Santos na Bahia e o de São Sebastião no Rio de Janeiro3, ambos também contavam com os cursos de Filosofia e Teologia. No colégio, tinha vez o curso de Letras Humanas ou Humanidades, dele se suprimiu, inicialmente, o Grego em favor do Tupi Antigo numa adaptação da Ratio studiorum de Cláudio Acquaviva (Azevedo, 1971, p. 528). O curso de Filosofia e Ciências era intermediário, chamado “Colégio das Artes”, com duração de três anos, na verdade um curso de Filosofia sobretudo. De nível superior, o curso de Teologia e Ciências Sagradas, realizado em quatro anos, destinava-se à formação sacerdotal.
A Metrópole não se dispôs a fundar no Brasil cursos superiores para especialidades como Direito e Medicina, fazendo com que os interessados, para fim de formação, se dirigissem à Universidade de Coimbra. O curso de Filosofia e Ciências da Colônia não logrou reconhecimento em Portugal, o que desestimulou a sua freqüência no Brasil, concentrando-se o ensino no curso de Letras Humanas. Assim sendo, o Colégio das Artes colonial acabou servindo como curso preparatório para o de formação religiosa. A partir do século XVIII, seminários diocesanos começaram a ser fundados, os dois primeiros em 1739 no Rio de Janeiro, seminários de São José e de São Pedro, sendo este depois dedicado a São Joaquim e refundado em 1837 como Colégio Pedro II. Com a expulsão da Companhia de Jesus, o ensino no Brasil praticamente se desorganizou, ficando reduzido aos seminários diocesanos e às escolas de fortificação, que vinham sendo fundadas desde o fim do século XVII4. Foi só em 1772 que o ensino no Brasil começou a se reorganizar com as cadeiras régias de nível secundário, entre as quais foram estabelecidas as de Latim e também as de Grego. Na lentidão da reforma do ensino no Brasil, a fiscalização das escolas tornou-se regular só a partir de 1799, devendo-se registrar que, nessa fase de restabelecimento da instrução no Brasil, o ensino religioso levava vantagem sobre o oficial no que toca à eficiência (Azevedo, 1971, p. 551-552). Em 1776, os franciscanos fundaram um curso superior de Teologia no Rio de Janeiro, preenchendo o espaço deixado pela supressão dos cursos da Companhia. Digno de nota foi o Seminário de Olinda, fundado em 1798, que se consagrou como modelo de renovação do ensino secundário5.
A educação no Brasil só mudou de quadro de forma relevante com a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Em 1808, o Príncipe Regente, futuro Dom João VI, fundou a Impressão Régia, de que deriva a imprensa oficial brasileira6. A Biblioteca Nacional, por sua vez, teve origem numa biblioteca criada em 1810, a primeira pública, cujo acervo inicial proveio da Biblioteca Real da Ajuda. Em 1808, ano da chegada da corte, as escolas de cirurgia foram implantadas na Bahia e no Rio de Janeiro, evidenciando a situação em que, até o momento, o Brasil se encontrava. Os cursos de Engenharia foram organizados em 1810, enquanto os de Artes Plásticas e Arquitetura esperaram até 1826, estabelecimento definitivo da Academia das Belas-Artes, o que só ocorreu em pleno Império, depois de sucessivas fundações (1816, 1820, 1820 e 1826) (Morales de los Rios Filho, 1960, p. 374-375). Foi também só com a Independência do país que se fundaram os cursos de Direito em 1827 em Olinda e em São Paulo. Após o Primeiro Reinado, durante o Período Regencial, o Brasil passou por uma nova fase de crescimento intelectual. O Ato Adicional de 6 de agosto de 1834 consolidou o ensino secundário no Brasil, ainda que de forma incipiente. Em 1837, foi fundado no Rio de Janeiro o Real Gabinete Português de Leitura, e, em 1838, foram criados o Arquivo Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Segundo o Ato Adicional, o ensino primário e secundário estava a cargo das assembléias provinciais, com exceção da cidade do Rio de Janeiro, diretamente subordinada ao governo imperial, responsável também pela instrução de nível superior (apud Azevedo, 1971, p. 574). Datam da época as tradicionais escolas secundárias que passaram a manter o ensino oficial pelos grandes centros do país. Em 1837, reorganizado o Seminário de São Joaquim como Colégio Pedro II, estabeleceu-se no Rio de Janeiro a escola-modelo do ensino secundário no Brasil. Com a reforma estatutária de 1841, o curso passou de seis para sete anos, sendo o Grego estudado nos quatro primeiros, enquanto o estudo do Latim se fazia ao longo de todo o período (Azevedo, 1971, p. 578-579). Ao fim do curso, era conferido o grau de Bacharel em Letras, o que deveria ter lugar num curso superior de Letras; no entanto, apesar de ter sido proposto, tal curso nunca foi implantado durante o Império.
Com o advento da República, houve uma reforma geral da educação no Brasil. No que toca ao secundário, planejou-se um ensino enciclopédico, privilegiando as ciências exatas e físicas em prejuízo da formação clássica e literária. O Decreto de 2 de janeiro de 1891 reduziu o curso de sete para cinco anos, o que não se aplicou ao Colégio Pedro II então Ginásio Nacional, rompendo-se a unidade do secundário no país (apud Faria, 1959, p. 86-87). Com relação ao ensino superior, houve uma difusão dos cursos de Direito, Medicina e Engenharia pelas unidades federativas, proporcionada pela autonomia estadual. Além daqueles tradicionais, fundaram-se também cursos de outras especialidades, diversificando-se o quadro da instrução no Brasil. Um Estado que se destacou na expansão da universidade foi São Paulo, novo pólo econômico do país, onde se fundaram, por iniciativa privada, as primeiras faculdades de Filosofia. A Universidade de Manaus, primeira nacional, foi criada em 1909, congregando as três faculdades tradicionais, uma Faculdade de Ciências e Letras, sendo esta uma escola secundária nos moldes do Ginásio Nacional com o bacharelado de Ciências e Letras (Passos, 1914, p. 71), e uma Faculdade Militar de acordo com as escolas superiores militares, já que a Escola Universitária Livre de Manaus, nome de fundação, teve origem na Escola Livre de Instrução Militar do Amazonas. Ignorada em parte nos anais da educação, a Universidade de Manaus foi, com efeito, a primeira universidade brasileira. A Universidade do Rio de Janeiro foi organizada em 1920, e concorreram, para tanto, algumas das mais antigas faculdades brasileiras, às quais depois foram sendo outras anexadas.
Em 1908, foram instaladas as duas primeiras faculdades de Filosofia, ambas em São Paulo, sob orientação católica7. A Faculdade Eclesiástica de São Paulo, anexa ao Seminário Provincial, funcionou por seis anos com o bacharelado de Filosofia (Silva & Silva, 1952, p. 25), encerrando as suas atividades em 1914. Na Faculdade Livre de Filosofia e Letras de São Paulo, também só era oferecido o curso de Filosofia, entendendo-se por “Letras” a Literatura, sobretudo de línguas modernas, e as Ciências Sociais e Históricas (Estatutos, 1909, p. 19). A Faculdade Livre de Filosofia e Letras era mantida pelo Mosteiro de São Bento, estando agregada, a partir de 1911, à Universidade de Louvain. Nos estatutos da Faculdade, previam-se futuras seções especiais de Letras e História (Extracto, 1911, p. 13), que só foram instituídas nas décadas seguintes. Em razão de sua antigüidade, a Faculdade de Filosofia de São Paulo, posteriormente de “São Bento”, é a que mais se presta à história da implantação dos estudos superiores em Letras no Brasil.
Os anos anteriores à Primeira Grande Guerra foram decisivos para a renovação dos estudos clássicos no país. A iminência da instalação das faculdades de Filosofia, a nova feição do curso secundário e a maior circulação das idéias e dos livros fizeram do momento o início de um período de transição nos estudos latinos no Brasil. Na fase anterior, o estudo do Latim se limitava ao seminário, ao secundário de tradição clássica e literária e ao curso jurídico com a cátedra de Direito Romano. Tal época produziu intelectuais de peso, grandes professores, tradutores e romanistas, homens públicos de cultura, como Manuel Odorico Mendes, Francisco Sotero dos Reis, João Gualberto Ferreira dos Santos Reis, Antônio Coelho Rodrigues, Francisco Rodrigues dos Santos Saraiva, Antônio José de Sousa e César Zama, citando os mais representativos. Ao longo desse período, os centros que mais se distinguiram nos estudos clássicos e romanísticos foram Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo. No início do século XX, Vicente de Souza, professor do Colégio Pedro II, divulgou um trabalho sobre a pronúncia reconstituída do Latim (Souza, 1902), demonstrando atualidade e antecipando a querela da pronúncia latina8, que marcou a fase posterior dos estudos latinos no país.
Em 12 de outubro de 1915, foi criada a Academia de Altos Estudos, vinculada ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, entre outras especialidades, contando com o curso de Filosofia e Letras. Neste curso de Filosofia, com duração de três anos, dedicava-se à Filologia um maior espaço (Estatutos, 1917, p. 4-5). Instalada em 1916, a Academia foi, três anos depois, reestruturada como Faculdade de Filosofia e Letras, ampliando a oferta de cursos. Entre as seções do Curso Normal Superior, encontrava-se, entre as de Letras, a de Línguas Clássicas (Latim e Grego) (Regulamento, 1919, p. 3); entretanto, até 1921, quando a Faculdade encerrou as suas atividades, os cursos de Letras não foram implantados. O vazio deixado pelo fim de tal centro foi ocupado em 1924 pela Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, que manteve o seu curso de Filosofia em atividade até 1937 na então capital federal. Em 1925, a Faculdade de Filosofia de São Paulo passou a oferecer também o curso de Filologia Clássica (Latim e Grego) (Relatorio, 1925, p. 17-20), primeiro de Letras no Brasil. O curso era trienal e seu primeiro professor foi Alexandre Correia, bacharel pela mesma faculdade e doutor em Filosofia pela Universidade de Louvain. Os formandos de Filologia Clássica não recebiam o título de bacharel, mas um atestado de conclusão de curso (Regulamento, 1931, p. 100), visto que não havia legislação para os estudos superiores em Letras. A Lei Rocha Vaz de 1925 confirmou os cinco anos do secundário, com quatro de Latim da segunda à quinta série, mantendo o curso de um sexto ano para os aspirantes ao grau de Bacharel em Ciências e Letras (apud Faria, 1959, p. 87), cabendo à escola média a concessão do título de amparo legal. Em 1931, fundou-se a Faculdade de Letras e Filosofia de São Paulo, extinta um ano depois. Embora tenha deixado pouca documentação, pode-se afirmar que não teve um papel decisivo por não ter havido tempo para consolidar a sua atividade.
Ministro da Educação e Saúde Pública, Francisco Campos reformou o ensino universitário, criando a Faculdade de Educação, Ciências e Letras com o Decreto nº 19851, de 11 de abril de 1931. Com relação às faculdades de Filosofia, foi a primeira iniciativa oficial, amparada num Estatuto das Universidades Brasileiras, entretanto, reorganizada a Universidade do Rio de Janeiro, ficou a Faculdade por instalar. O curso secundário também foi reformado com o Decreto nº 19890, de 18 de abril de 1931. Dividido em dois, mas ampliado para sete anos, cinco do curso fundamental e dois do complementar por especialidade, sendo ofertados quatro anos de Latim, dois no fundamental e dois na seção especial de Direito (Faria, 1959, p. 87-88). Em 1933, foi implantada em São Paulo a primeira faculdade de Filosofia segundo o Estatuto, o Instituto Superior de Pedagogia, Ciências e Letras “Sedes Sapientiae”, de orientação católica como a Faculdade de Filosofia de São Bento. Armando de Sales Oliveira, no governo do Estado de São Paulo, fundou a primeira faculdade oficial de Filosofia, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, instituída esta em 1934 com a criação de novas faculdades e a reestruturação das unidades tradicionais. A exemplo dos cursos anteriores de Letras e Filosofia, o de Letras Clássicas e Português da USP tinha duração de três anos (Anu. Fac. Fil. Ci. Letras, 1934/1935, p. 289-292), sendo Michel Berveiller o primeiro professor de Latim e Grego, já que a FFCL dispôs de uma missão de professores estrangeiros. Em 1935, fundou-se no Rio de Janeiro a Escola de Filosofia e Letras, integrando a então criada Universidade do Distrito Federal. Também contando com estrangeiros, no curso de Latim e Grego, a UDF teve Jacques Perret como professor de Latim, que fez escola com destaque para Ernesto Faria.
A Faculdade Nacional de Filosofia foi criada com o Decreto nº 452, de 5 de julho de 1937, quando se converteu em Universidade do Brasil a Universidade do Rio de Janeiro, mas a FNF só foi instalada com o Decreto-Lei nº 1063, de 20 de janeiro de 1939, que extinguiu a UDF, tranferindo os seus cursos para a Universidade do Brasil. O governo federal também padronizou os cursos superiores com o Decreto nº 1190, de 4 de abril de 1939. O curso de Letras Clássicas (Português, Latim e Grego) foi ampliado com um quarto ano para formação pedagógica, com o que se distinguia o bacharel do licenciado (Anu. Fac. Fil. Ci. Letras, 1939/1949, p. 15-16). O ano suplementar também serviu para especialização, possibilitando o curso de um quarto ano de Língua e Literatura Latina (Anu. Fac. Fil. Ci. Letras, 1951, p. 257). Em 1940, o Conselho Nacional de Educação reconheceu os cursos da Faculdade de Filosofia de São Bento (O reconhecimento, 1940, p. V-VI), uma vez pautados pelo Decreto nº 1190. No curso de Letras Clássicas de São Bento eram então professores de Latim e Grego, respectivamente, Polycarpo Amstalden e José Rodrigues dos Santos. Daí em diante, criaram-se mais cursos superiores de Letras, ficando para trás a fase do bacharelado em Ciências e Letras.
Com a consolidação do ensino universitário, os estudos latinos no país assumiram outra dimensão. Nota-se a profusão de artigos e resenhas em revistas de cultura, como A Ordem, Revista de Cultura e Vozes de Petrópolis, as três de inspiração católica. O número de traduções e de livros didáticos aumentou sensivelmente, devendo-se registrar os nomes de Augusto Magne, Leopoldo Pereira e João Ravizza, o primeiro e o último também autores das gramáticas mais elaboradas do período. O curso secundário mostrou vitalidade, contribuindo para o debate com as teses de concurso, entre o que merecem destaque os trabalhos de Hahnemann Guimarães e de Nelson Roméro. No ensino superior, formaram quadro Jacques Perret e Ernesto Faria, na UDF e na Universidade do Brasil, e, na USP, Rebêlo Gonçalves, entre outros, deu nova orientação aos estudos clássicos. Dos intelectuais dessa época, devem-se mencionar o romanista Abelardo Saraiva da Cunha Lobo e o humanista Fernando de Azevedo, sociólogo e pedagogo.
A Lei Capanema de 1942 coincidiu com um novo momento dos estudos latinos no Brasil. Uma fase próspera que, ao mesmo tempo, apresentava a sua contrapartida. A Lei Capanema ampliou para sete anos o ensino do Latim no secundário, nas quatro séries do Ginásio e nas três do Clássico do Colegial (apud Nóbrega, 1962, p. 457). Como não havia um quadro de professores habilitados, a demanda foi suprida de modo improvisado (Nóbrega, 1962, p. 461), permitindo um ato ministerial que os licenciados em Letras Neolatinas e Anglo-Germânicas também lecionassem Latim (Faria, 1959, p. 288), o que tornou o ensino desigual e mesmo insatisfatório. Um expoente dos latinistas, Vandick L. da Nóbrega, reconheceu o efeito negativo da Lei Capanema (Nóbrega, 1962, p. 461). Na execução da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1962, tornado facultativo o Latim no secundário, ficou evidente que o seu ensino se mantinha por força de lei, uma vez que, a partir daí, caminhou para a quase total extinção. A tripla licenciatura de Português, Latim e Grego não sobreviveu a essa década, após o que o Latim na universidade se limitou às disciplinas obrigatórias dos cursos de Letras e à graduação opcional em Língua e Literatura Latina. A vitalidade dos estudos latinos no período que vai grosso modo de 1940 a 1970 não deve ser atribuída à Lei Capanema, salvo o maior volume de livros didáticos, e sim ao resultado do amadurecimento conseguido ao longo das primeiras décadas do século XX.
Por ocasião da Lei de Diretrizes e Bases, havia no país três grandes associações de classicistas, cada uma com revista ou coleção especializada: Boletim de Estudos Clássicos da Associação de Estudos Clássicos do Brasil, Graeca & Latina da União Nacional de Cultura Greco-Latina e Romanitas da Sociedade Brasileira de Romanistas. Com a expansão das faculdades de Filosofia, criaram-se revistas que abriram espaço para a publicação de artigos e resenhas elaborados pelos professores de Letras Clássicas. As teses de concurso e da carreira universitária continuaram a ser o meio de ascensão e de formação profissional. Com relação ao nível universitário, os trabalhos publicados mostraram um avanço contínuo. A querela da pronúncia dominou grande parte do período e foi, para prejuízo dos estudos latinos, tratada de forma apaixonada e intransigente com muito desgaste para as partes envolvidas. Entre os defensores da pronúncia reconstituída, destacaram-se J. Mattoso Câmara Jr., Ernesto Faria e Serafim da Silva Neto. A pronúncia tradicional foi amparada sobretudo por Cândido Jucá Filho, J. F. Marques Leite e Nelson Roméro. Dos autores de livros didáticos, merecem destaque Júlio Comba e Napoleão Mendes de Almeida pela grande aceitação de seus manuais. Quanto à tradução de textos latinos, entre as muitas contribuições, citam-se as de Arduíno Bolivar, Jaime Bruna, João Evangelista Enout, Maximiano Augusto Gonçalves, Agostinho da Silva e Tassilo Orpheu Spalding. Arrolando os latinistas que se projetaram pelos seus trabalhos ou pela formação de pessoal, mencionam-se, além dos citados, Paulo Evaristo Arns, Evanildo Bechara, Laurindo Dias Bicalho, Cláudio Brandão, Junito de Souza Brandão, Otávio T. de Brito, Heinrich A. W. Bunse, Antônio Pinto de Carvalho, Aída Costa, Ismael de Lima Coutinho, Sílvio Elia, José Lourenço de Lima, Augusto Magne, Theodoro Henrique Maurer Junior, Salvatore D’Onofrio, Alfredo Xavier Pedroza, R. C. Romanelli, Abílio de Jesus dos Santos, Olmar Guterres da Silveira, Maria Evangelina Soeiro, Armando Tonioli, Dante Tringali, Mílton Valente e Maria Amélia de Pontes Vieira. A Faculdade de Filosofia de São Bento e o Instituto “Sedes Sapientiae” integraram a Universidade Católica de São Paulo, fazendo parte de sua escola L. Van Acker, Neyde Ramos de Assis, Adelino José da Silva d’Azevedo, José van den Besselaar, João Ecsodi, Bento Prado de Almeida Ferraz, Enio Aloisio Fonda, G. D. Leoni e Celestino Correia Pina. A cadeira de Direito Romano em muito contribuiu para o avanço dos estudos latinos, nela sobressaindo Alexandre Correia, Sílvio A. B. Meira, Vandick L. da Nóbrega, J. Lourenço de Oliveira e Elpidio Ferreira Paes, os três últimos também professores de Latim, respectivamente, no Colégio Pedro II, na Universidade de Minas Gerais e na Universidade do Rio Grande do Sul. Na impossibilidade de continuar a listagem9, menciono A. Marques de Oliveira Filho, evocando os latinistas brasileiros com um nome, o de um profissional a quem não se deu o devido reconhecimento (Freitas, 1990).
Por volta de 1970, o ensino do Latim no Brasil estava reduzido aos seminários e aos cursos de Letras. Quanto ao ensino primário e secundário, houve uma reforma, no início da década seguinte, que o reorganizou em dois graus, um primeiro de oito anos e um segundo de três anos de duração. Dez anos após a Lei de Diretrizes e Bases, o Latim havia praticamente desaparecido no ensino secundário, constituindo notória exceção, entre outros estabelecimentos, o tradicional Colégio Pedro II. Nos cursos de Letras, a graduação em Língua e Literatura Latina não se manteve sequer nas universidades católicas, permanecendo somente nas instituições públicas com tradição nos estudos latinos. Também no início dos anos 70, os cursos de pós-graduação foram reestruturados de acordo com nova orientação. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, antiga Universidade do Brasil, Américo da Costa Ramalho, da Universidade de Coimbra, destacou-se no curso de pós-graduação por ter consolidado a linha de pesquisa dedicada ao Latim do Renascimento. Em 1972, Enio Aloisio Fonda criou o Archivum Generale Poetarum Latinorum Brasiliensium na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, incorporada posteriormente à Universidade Estadual Paulista. Nos anos 80, com a implantação do curso de pós-graduação no campus de Assis, desenvolveu-se a linha de pesquisa relativa à Latinidade Brasileira.
A Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos foi criada em 1985 a partir de um evento realizado em 1984 por iniciativa de professores do Departamento de Letras Clássicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Desde então, os membros da SBEC vêm se congregando periodicamente em reuniões e simpósios. A partir de 1987, o grupo de trabalho “Latim e Grego na Universidade Brasileira” tem se reunido com normalidade nos encontros da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (Anpoll). Em 1981, cessou o periódico Romanitas, que teve à frente Vandick L. da Nóbrega, cujo trabalho editorial prosseguiu então com a revista Omnia, publicação da extinta Faculdade de Humanidades Pedro II. Na UFRJ, a helenista Guida Nedda Barata Parreiras Horta dirigiu a revista Calíope da associação de estudos clássicos homônima, valendo registrar que, nessa universidade, teve sede primeiramente a Sociedade Brasileira de Estudos Latinos, fundada por Ernesto Faria. A SBEC se consagrou como a única grande associação em nível nacional, situação diferente da vivenciada nos anos 50 e 60. Quanto à produção acadêmica, a SBEC vem publicando os anais de seus eventos, a revista Classica e a coleção Textos de Cultura Clássica.
No fim de 1996, foi sancionada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, facultando o Latim no ensino superior, o que trouxe apreensão aos latinistas brasileiros. Analisando o quadro de forma desapaixonada, entende-se que a situação do Latim em 1942 e em 1996 tem algo em comum, a obrigatoriedade do ensino e a formação desigual do professor nomeado. Em 1996, havia 389 cursos de Letras10, no entanto, para a graduação do latinista, existia uma dezena de cursos, em sua maioria, concentrada nos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Deve-se compreender que, desde os tempos de Gustavo Capanema, em se tratando de ensino, a expansão indiscriminada pode levar à improvisação do profissional, o que não contribui para o fomento dos estudos latinos (Nóbrega, 1962, p. 461). No caso do ensino superior, a habilitação exigida varia segundo os editais de seleção e concurso, mas, para o bom desempenho do professor, são necessários alguns anos de amadurecimento (Costa, 1972/1973, p. 460).
O quadro não deve ser considerado desanimador, porque o desafio está em garantir a qualidade do ensino do Latim com vista à sua difusão. Nos anos 90, as graduações de Latim e Grego foram reativadas na Universidade Federal Fluminense. Na Universidade Estadual de Campinas, onde as Letras Clássicas limitavam-se ao Latim do currículo mínimo, o quadro foi ampliado, inclusive com professores de Grego, adquirindo-se importante biblioteca. Os cursos de Letras Clássicas de outras regiões devem ser preservados e incentivados, sendo necessária muita prudência na abertura de novas graduações. No que diz respeito ao ensino secundário, seria interessante que o Latim tivesse o mesmo tratamento dispensado ao Grego anteriormente. O que não é impossível, haja vista o Colégio Pedro II que manteve, décadas após a antiga Lei de Diretrizes e Bases, o ensino facultativo do Latim e do Grego em suas unidades escolares. Tem havido experiências bem sucedidas de implantação do Latim em estabelecimentos particulares do atual ensino médio e até do fundamental. Os seminários menores e maiores também merecem atenção no incentivo aos estudos clássicos, uma vez que sempre foram ligados à preservação da herança romana. É preciso tratar a questão do Latim de forma serena e evitar posições extremadas que levam a distorções pouco defensoras da cultura clássica.
Notas
1 Planejo incluir este panorama histórico na versão definitiva do Repertório brasileiro de língua e literatura latina (1830-1996).
2 Franciscanos, carmelitas e beneditinos chegaram a manter escolas, das elementares às de Teologia, mas de forma irregular e diminuta.
3 O colégio instalado em 1567 no Rio de Janeiro tinha sido fundado originalmente em 1549 em São Vicente, transferido em 1554 para Piratininga (Colégio de São Paulo), estando de novo em 1561 em São Vicente até a sua transferência definitiva (Azevedo, 1971, p. 511-512). Conforme estudos posteriores, as escolas secundárias foram criadas a partir de meados dos anos 60, predominando anteriormente as de ler e escrever (Custódio & Hilsdorf, 1995, p. 178-179).
4 As “Aulas de Fortificação” foram instituídas em 1699 na Bahia e no Rio de Janeiro e em 1739 em Pernambuco. Em 1792, a escola do Rio de Janeiro se tornou a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, e o Príncipe Regente, em 1810, a organizou como Academia Real Militar, origem da engenharia civil e militar brasileira.
5 Criado em 1798, mas só implantado em 1800. Mantive as datas de fundação apenas quando não muito distantes das do real estabelecimento.
6 A imprensa fora introduzida em 1747 no Rio de Janeiro sob Gomes Freire de Andrade, futuro Conde de Bobadela, mas tal iniciativa foi reprimida pela Metrópole.
7 Para o estudo das primeiras faculdades de Filosofia, assunto não tratado ainda de forma satisfatória, uma boa referência é, embora não exaustiva, Américo Jacobina Lacombe, Introdução ao estudo da história do Brasil (Lacombe, 1974, p. 151-157). Em 12 junho de 1913, em Fortaleza, fundou-se a Faculdade de Letras do Ceará, que teve curta duração. Pesquisa realizada in loco não conseguiu localizar documento algum ao seu respeito. Deve ter sido de muito curta duração já que não figura nos volumes do Almanak Laemmert relativos aos anos de 1913 e 1914. A julgar pela proposta do curso oferecido e pelos perfis dos fundadores da Faculdade, tratava-se, provavelmente, de um curso superior de Ciências e Letras, a exemplo do curso de Letras mantido pelo Mackenzie College de São Paulo. Em 1898, o Colégio Protestante de São Paulo, ligado à Igreja Presbiteriana do Brasil, deu lugar ao Mackenzie College, vinculado à Universidade do Estado de Nova York. Além do bacharelado em Ciências (Engenharia Civil), também era oferecido um bacharelado em Letras, na verdade, Ciências e Letras, pois as Humanidades compunham o currículo com Ciências e Matemáticas. Apesar de ter mantido o anúncio de tal curso no Almanak Laemmert até os anos 20, o registro de diplomados havia cessado em 1904 (Hack, 2002, p. 143, 144, 160 e 166).
8 Anteriormente, Júlio Ribeiro, professor de Latim em curso anexo à Faculdade de Direito de São Paulo, deixara uma Nova grammatica da lingua latina (Ribeiro, 1895), obra póstuma, inacabada, mas de rigor científico, com nova orientação para a pronúncia do Latim.
9 Só estão citados os especialistas com trabalho de destaque até os anos 60. Em virtude da delimitação do objeto trabalhado no Repertório, autores latinos anteriores ao Renascimento Carolíngio, fica sem tratamento aqui a Latinidade Brasileira. No entanto, dos séculos XIX e XX, mencionam-se, entre tantos, os seguintes poetas latinos: Joaquim Luís Mendes de Aguiar, Francisco de Aquino Correia, José Francisco Correia, J. F. Marques Leite, Antônio de Castro Lopes, Caetano Oricchio e Pedro Sarnel.
10 Desse total, 151 cursos eram oficiais: 78 estaduais, 57 federais e 16 municipais.
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RÉSUMÉ: Il s’agit de l’importance de l’enseignement du Latin à la période colonial, surtout du rôle de la Compagnie de Jésus. On discute le long processus de la réorganisation de l’enseignement secondaire et des débuts des études supérieures. On présente l’époque de la fin du secondaire de tradition littéraire à la fondation des premiers cours de Lettres et Philosophie. On apprécie les études latines de 1940 à 1970, leur période la plus importante au Brésil, en traitant la Lei Capanema de 1942 et l’ancienne Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Le panorama se termine par le rapport des activités jusqu’à 1996, et on considère le cadre lors de la nouvelle LDB.
MOTS-CLÉS: Latin; Brésil; enseignement; histoire de l’éducation.